Brumas do Tempo (LIV)
No final de 1973, ao concluirmos o Curso Geral de Mecânica, não foi tanto a emoção que nos abalou, mas antes a súbita consciência de termos atravessado um limiar invisível – esse instante raro em que a vida deixa de ser mera promessa e se converte em condição. Assim, em janeiro de 1974, pela discreta confluência de vontades – a …
Brumas do Tempo (LIII)
Nas nossas deambulações esporádicas por Terras de Valdevez – esses instantes suspensos onde o tempo parece oscilar entre a contemplação e a inquietação –, mesmo quando não atravessamos um dos períodos mais férteis em ação prática ou superação da intersubjetividade físico-cognitiva, há sempre um gesto que nos ancora: o ato de olhar. E, nesse olhar mediado pela máquina fotográfica, encontramos …
Brumas do Tempo (LI)
À beira do Mar de Viana, onde o rumor das ondas se confunde com o silêncio do pensamento, a liberdade deixa de ser um conceito abstrato para se tornar experiência vivida. Não como algo que se possui, mas como algo que se pressente – uma abertura, uma ausência de fundamento que, paradoxalmente, sustenta tudo. É nesse vazio fértil que o …
Brumas do Tempo (L)
Entre lugares e memórias, constrói-se a identidade de um artista. José Rodrigues (1936-2016) pertenceu a uma geração que abriu caminhos novos em Portugal. Nasceu num tempo em que a arte procurava respirar modernidade. E, ainda assim, nunca deixou de escutar a voz dos lugares. Cada cidade tornou-se uma camada da sua própria consciência. O Porto deu-lhe as pedras, o nevoeiro …
Brumas do Tempo (XLIX)
Do alto do monte nasceu o primeiro olhar. Não apenas um olhar geográfico, mas um pressentimento de destino. Foi ali, no Monte de Santa Luzia, que a paisagem ensinou os homens a pensar o horizonte. Diante deles corria o Rio Lima, paciente e antigo, levando nas suas águas a memória de povos que por ali passaram. E mais além abria-se …
Brumas do Tempo (XLVIII)
Há homens que nascem duas vezes: uma no registo civil, outra na memória. Tomaz de Figueiredo foi dado como nascido em Braga, em 1902, mas a sua verdadeira origem parece erguer-se no granito da Casa de Casares, em Arcos de Valdevez. Ali, a inscrição perpetua-o: “NESTA CASA DE SEUS AVÓS / NASCEU E CRESCEU / PARA A LÍNGUA PORTUGUESA…”. E …
Brumas do Tempo (XLVII)
Falar da «Associação dos Reformados e Pensionistas de Viana do Castelo» é convocar a memória como exercício de justiça. E nessa evocação surge, com nitidez humana, Carlos José da Silva Lima (1919-1998), portuense de nascimento e vianense por escolha do coração. Casou com uma filha de Viana do Castelo e fez da cidade não apenas morada, mas pertença. Há destinos …
Brumas do Tempo (XLVI)
Percorrer trilhos é uma forma discreta de regressarmos a nós próprios. Há algo de profundamente humano nesse gesto simples de caminhar. A natureza, sem pressa, obriga-nos a abrandar o pensamento. E nesse abrandamento começamos a ouvir o que normalmente ignoramos. Quando o espaço natural é cuidado pela mão humana, cria-se cumplicidade. Sentimo-nos parte de um todo que pensa, sente e …