Em artigo anterior sobre a nova sinodalidade eclesiástica, no intuito de «fazer memória … do caminho da Igreja ao longo da história» (Documento Preparatório nº2), distinguia três tempos: o originário, o apostólico e o eclesiástico, distintos, precisamente, pela sua diferente sinodalidade.
O originário foi o da presença humana de Jesus na convivência com os seus apóstolos e discípulos, revelando a sua missão e o seu Projeto. Foi o tempo fundador da sinodalidade, a ser testemunhado (cf.Luc.24,48).
O modelo estruturante dessa sinodalidade, Jesus definiu-o muito claramente, por mais que os clérigos o esqueçam: «sabeis como aqueles que se dizem governadores…exercem a sua autoridade, mas entre vós não deverá ser assim» (Mc.10,42), «nunca vos deixeis tratar por mestre, pois um só é o vosso Mestre e todos vós sois irmãos. Na terra não chameis padre a ninguém, pois um só é o vosso Pai, aquele que está no Céu» (Mt.23,9). A estrutura da convivência e da agregação cristã teria de ser essa: sem hegemonia: todos irmãos, com um único Mestre e um único Pai.
O segundo tempo foi o apostólico, o tempo da formação das primeiras comunidades cristãs, expandindo-se no interior de vários povos e várias civilizações: judeus, samaritanos, gregos, romanos, medos, persas, da Capadócia, do Ponto, da Frígia, da Panfília, do Egito, da Líbia, de Creta e árabes (cf. At.2,9). Elementos destes povos, presentes em Jerusalém na festa de Pentecostes e espantados com os cristãos entusiasticamente reunidos, aparentemente ébrios, estiveram na origem de muitas originárias comunidades cristãs. O apóstolo Pedro explicou-lhes que estavam sob o efeito entusiasmante do Espírito de Jesus, que lhes permitia estar abertos à compreensão de todos os povos e de todas as línguas… (At. 2, 11-18). Era gente da diáspora judaica que, regressando aos seus lugares de residência, aí implantou o testemunho cristão. Não seria possível que surgissem tantas e tão dispersas comunidades, em tão pouco tempo, apenas por iniciativa dos “doze” apóstolos.
Por exemplo, já na década de 40, sob o império de Cláudio, havia comunidades cristãs em Roma, sem que qualquer apóstolo lá tivesse ido. O apóstolo Paulo, aí pelos anos 51/52, ao chegar à cidade grega de Corinto, teve a surpresa de ali encontrar cristãos vindos de Roma. No ano 58 escreveu aos cristãos romanos uma importante carta, mas só chegou a Roma no ano 60, sob prisão. Nessa altura ainda lá não tinha chegado o apóstolo Pedro. Na sua viagem para Roma, Paulo aportou a Pozzuoli, cerca de Nápoles, onde já havia cristãos, que o acolheram. Não consta que qualquer dos “doze” lá houvesse chegado. Aliás, as tradições fundamentadas só guardaram a memória de cinco dos “doze”. Os apóstolos foram centenas. Segundo o testemunho de Paulo de Tarso, foram os que puderam testemunhar, pessoalmente, Jesus ressuscitado (1Co.15,3-15). Um deles, talvez o maior, foi o próprio Paulo de Tarso, que não tinha convivido com Jesus e até participara na perseguição aos primeiros cristãos helenistas de Jerusalém. Outros foram, por exemplo, Barnabé, Estêvão e Filipe. A cristianização era testemunhal, crescia testemunhalmente e tornava-se sinodal, comunitária, não hegemónica.
Conhecemos o modelo da sinodalidade originária pelo testemunho das sete cartas autênticas de Paulo e por mais alguns documentos dos dois primeiros séculos. Um deles é um interessante diálogo entre um cristão e as objeções de um pagão, escrito por Minúcio Félix, em meados do segundo século. Outro é o testemunho do filósofo Justino (100-170).
Mas é em Paulo que encontramos o modelo da prática da sinodalidade das comunidades: «cada um recebe o dom de manifestar o Espírito para a utilidade de todos» (1Co.12,7), «já não há diferença entre judeu e grego, entre escravo e homem livre, entre homem e mulher, pois todos vós sois um só em Jesus Cristo» (Ga.3,28), «todos vós podeis profetizar [expressar-se]… para que todos sejam instruídos e encorajados; os espíritos dos profetas estão submissos aos profetas» (1Co.13,31). Era, pois, uma sinodalidade sem qualquer hegemonia.
As comunidades cristãs eram comunidades de aprendizagem fraterna, sem predomínio, nem de homens, nem de mulheres, nem de sábios, nem de ignorantes, nem de ricos nem de pobres, nem de gregos, nem de romanos, nem de judeus. Deviam ser todos para todos, testemunhando essa aprendizagem de fraternidade evangélica. Não tinham livros (foram elas a origem dos livros, os evangelhos), não tinham sacerdotes, nem templos, nem altares, mas tinham os testemunhos. Não especulavam teologias, aprendiam mutuamente (em sínodo) o “viver cristão” nas múltiplas circunstâncias, felizes ou dolorosas, do seu quotidiano.
José Veiga Torres