3 – A Igreja de Nossa Senhora de Monserrate (construção)

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Saímos apressados do “A Aurora do Lima”. Não havia atrasos, mas havia também a preocupação de os evitar, escapando ao “à boa maneira portuguesa”, como banalmente se diz. Olhamos para os lados da Avenida dos Combatentes e, ainda longe, alguém nos acenava. Remirando, apercebemo-nos que Joaquim Terroso, acompanhado por um jovem, se encaminhava para as nossas bandas.

– Bom dia. Aqui vos apresento o meu neto Constantino. Chegou ontem para se juntar aos avós. Sabem, é muito parecido com o avô, e nisso tenho muito orgulho, e até alguma vaidade. Gostava que tivesse o meu nome, mas os pais não quiseram. Como somos família unida, quando juntos, nunca se saberia quem chamava quem. Ficou o apelido, para perdurar. Aluno de excelência, porque inteligente e estudioso e disso também faço exibição.

Muito curioso, como nós, pelas coisas da nossa Viana e um leitor assíduo do nosso jornal. Aposto nele para levar a nossa Aurora bem longe na família. Aqui está ele, acompanhado de papelada suficiente para compreendermos melhor o que nos espera. E não nos esquecemos da Lusa, na parte que fala sobre o hediondo crime da construção e demolição da Igreja de Monserrate. Mas este meu Constantino é que dava um bom cronista. Vamos dar-lhe a possibilidade de ser ele a escrever sobre esta matéria que tanto nos toca? “Evidentemente que sim, Senhor Joaquim. Os jovens são, em cada momento, os continuadores do nosso legado, que nem sempre é honroso”. Com bonomia, Terroso acenava com a cabeça num sim sentido.

Partimos de novo para o Largo 9 de Abril, de jura em não nos demorarmos, para caminharmos monte acima, provavelmente pelo escadório, onde teríamos que galgar cerca de 900 degraus de pedra, porque disso também fazia questão o Terroso júnior. No local apercebemo-nos que Constantino tinha a lição bem estudada, provavelmente, depois de boa seroada a ler José Caldas na Lusa. “A igreja, em 1603, já apontava como verdade”, disse, mas não se sabe da data do primeiro ato religioso. Caldas, neste seu trabalho, verbera o facto, que considera incompreensível. Mas não deixa de salientar que Viana rejubilou com a instalação de mais uma igreja que acolheria uma Santa de forte devoção das suas gentes, daí as esmolas, por tão farto cometimento, continuarem abundantes. Segundo Caldas, entre os mais generosos, destacava-se Francisco da Rocha Páris, fidalgo da casa de el-rei, e cavaleiro professo na Ordem de S. Thiago, com casa a confinar com o terreno da ermida.

Constantino explicava-se, perante o olhar babado do avô. As explicações eram abundantes, por isso pensamos que o passeio aqui morreria de novo. O jovem, apontando a Lusa, citava Francisco da Rocha, outro benemérito de garbo, que logo exigiu para si e família capela no interior da ermida, consagrada à Virgem Nossa Senhora do Carmo, que, concretizada, foi pouso da mulher mais tarde falecida.

Depois, Constantino recorre novamente a Caldas, quando este cita informação segura e documentada, de 23 de Janeiro de 1621, proveniente do Arcebispo de Braga, D. Afonso Furtado, do estado florescente da igreja de Monserrate, já de intensa devoção, obrigando-o a fundar a paróquia da mesma invocação. Entre várias considerações, sua eminência escreveu e rematou desta forma: “e como no tempo desta Ereção achamos feita a ermida de N. Senhora de Monserrate, que é grande e capaz para Igreja paroquial, e porque seria grande despesa para o povo erigir nova Paróquia, criamos nela a sobredita nova Paróquia com a mesma Invocação de N. Senhora de Monserrate, a qual erigimos e invocamos em Igreja Paroquial, com os limites seguintes”:
“Alto”, diz bem alto Joaquim Terroso, ao ponto de o neto ficar algo pasmado: “a fome, tal como a igreja, também se mata”. Olhando-nos, curvando-se um pouco, mãos no peito, pede desculpa, mais uma vez, e propõe nova paragem no nosso roteiro. “pelo que já conheço, a demolição da igreja, ermida, ou como lhe queiram chamar, dá para conversa de nova manhã”. Bem dizíamos que a viagem a Santa Luzia seria mais uma vez prolongada. Despedimo-nos, apercebendo-nos que Joaquim Terroso não gostou deste fim atribulado, ainda para mais na presença do neto. Mas, justificando-se, rematou: “para a semana cá estaremos os dois, porque o moço vai ficar por cá uns tempos”. Com despedida afetuosa, por caminhos opostos, partimos para o almoço. “Para a semana acabamos mesmo este assunto”, diz-nos Terroso avô, já distanciado. Acenamos-lhe, amigavelmente.

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