Imprensa livre versus corrupção

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A. Lobo de Carvalho

Pense cada um como entender, em relação ao regime político que vigorou antes do 25 de Abril de 1974, porque a verdade — pesem embora todos os defeitos e erros que lhe são atribuídos — que nunca esse regime permitiu que se instalassem condições para uma corrupção tão profunda e vergonhosa em órgãos, empresas e serviços do Estado, como hoje acontece, já que havia mais e melhor ética norteando a conduta dos responsáveis políticos e sedimentada numa educação recebida desde o berço que não era alienada. Esta democracia, ao contrário, e à sombra da qual tantos abusos se cometem e tanta riqueza duvidosa floresce, é bem a imagem do gozo das tão reclamadas liberdades, percebendo-se bem porquê! Assemelha-se a um saco sem fundo onde tantos gostam de meter as mãos, e até os pés, esmifrando tudo quanto podem, não só para alimentar fantasias e vícios, como também para glorificar a cleptomania.

Penso que quem é chamado a desempenhar altas funções na administração do Estado, considerando a retribuição que lhe é oferecida, tem condições para levar uma vida com dignidade, mas não para viver no luxo de uma existência faustosa ou entrar em devaneios, a menos que junte outras fontes de rendimento lícito ou ilícito. É que o Estado, como sabemos, não se alarga na retribuição aos seus servidores e quem é chamado a servi-lo sabe, à partida, com aquilo que conta, não podendo entrar em loucuras. E, se entra, algo reclama atenção!

Mas há sempre quem transgrida e goste de viajar em classe executiva, encarando o serviço público como um trampolim para poder realizar uma vida de sonho, pondo a integridade de lado e valendo-se dos poderes decisórios que os cargos lhes conferem. E, assim, surge o poder de influência, o compadrio e o amiguismo, que geram fluxos financeiros expressivos que urge aumentar e camuflar, acabando por se transformar numa patologia. E, convencidos de que são os intocáveis da sociedade, julgando mesmo fazer dos outros uns mentecaptos, nem se dão conta que estão a tecer a mortalha em que irão ser embrulhados quando a Justiça os arrebatar para responderem pelos seus abusos, pois há sempre um momento da confrontação com a verdade!

Este nosso Estado, tão pequeno e tão delapidado nos seus diversos patamares do poder por gente sem que deveria ser exemplar, acaba assim por ser vítima dos abusos imperdoáveis por parte de uma matilha selvagem, ardilosa e sem escrúpulos, a quem deu guarida, mas que quis fazer passar-se por uma elite de intocáveis.

Espanta-me que venham agora, quais virgens ofendidas, reclamar contra os julgamentos por parte da opinião pública, com base nas notícias e informações difundidas pela comunicação social, quando tantos que agora prestam contas à Justiça berraram quanto puderam na defesa da liberdade de imprensa! Então a liberdade de imprensa serve para uns e não se aplica a outros? Não lhes interessa essa liberdade só porque põe a nu os seus comportamentos a todos os níveis condenáveis?

A comunicação social, gostem ou não, presta um serviço imprescindível à sociedade e penso que não pode nem deve ser silenciada. Que seria deste país, no momento actual, sem uma imprensa livre e actuante? Quem nos daria conhecimento das misérias morais, materiais, sociais e políticas que tantos cleptomaníacos querem a todo o custo esconder? Ensinaram-me que, na pesquisa de notícias e informações, as fontes têm sempre de ser protegidas e nunca reveladas, pelo que não pode haver nenhum poder que obrigue os jornalistas a revelar a origem das informações que tornou públicas. Se esse poder não concorda e quer descobrir a fonte, então só lhe resta investigar, mas nunca silenciar. A investigação jornalística é livre e acaba, também, por funcionar como um travão à ilicitude, e isso é positivo.

A corrupção é um cancro com metáteses em todos os sectores da sociedade: vive e convive na política, em autarquias, na Justiça, nos serviços e empresas públicas, na banca, no futebol e outros desportos, no sector privado, etc., e, quanto mais os órgãos de polícia criminal investigam, mais promiscuidades descobrem. É um poço sem fundo ou, se quisermos, um novelo que, por mais que se desenrole, parece não ter fim!… O nosso país, lá nisso, está muito modernizado!…

Pese embora o facto de nem todos os actores da Justiça merecerem a confiança dos cidadãos — em vista dos casos de corrupção no seu seio — ,releva-se, no entanto, o empenho geral dos órgãos de polícia criminal e das magistraturas no combate a esta patologia social, e saúdo, com respeito e muito apreço, a mais alta magistratura do Estado, por não se ter deixado contaminar, sendo a única a merecer pleno crédito por parte dos portugueses, desejando que se mantenha inviolável.

Os cidadãos estão cientes de que muitas situações anómalas acontecem porque os exemplos vêm de cima, como tem vindo a ser público. Mas quando a seriedade de políticos e altos figurões fica encalhada, com a consequente desvalorização dos valores éticos e morais, a sociedade torna-se inconformada e reactiva.

Lobo de Carvalho

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