A minha querida Viana de outros tempos

António Pimenta de Castro
António Pimenta de Castro

Que saudades tenho da minha querida Viana, dos tempos em que eu era ainda uma criança, onde vivi uma grande parte da minha feliz juventude. 

Nasci na vila de Arcos de Valdevez, freguesia de Salvador, mas, com poucos dias de vida, fui viver para Viana do Castelo, para a rua Manuel Espregueira, na casa junto ao atual Arquivo Distrital, perto da sede do jornal “A Aurora do Lima”. Lembro-me perfeitamente de um episódio que aqui tive, e que jamais esquecerei. A viver nesta rua, apanhei o “sarampo”, era o ano de 1961. Tratava-se de uma doença que me obrigava a estar fechado num quarto, no segundo andar da casa, iluminado por luzes vermelhas. Certo dia, a minha querida mãe demorou-se a levar-me o jantar. Toquei na campainha da cama, de pronto tendo acorrido a minha progenitora, mas com uma cara muito infeliz, dizendo-me: “Desculpa, Toninho, é que o teu pai e o teu irmão estão “colados” ao rádio para ouvir as notícias, parece que o “terrorismo se instalou em Angola” … Jamais esquecerei esse dia.

Ainda muito miúdo, andava sempre com o meu avô e padrinho, o professor reformado, António José de Gonçalves Ramos, que fazia tertúlia com os amigos no Café Bar, ao lado da Caravela (esta era muito frequentada pelas senhoras elegantes da cidade). Aí fiz uma boa “equipa” de amigos, que muitos chocolates, ou outras guloseimas me deram. Com o meu pai e o meu querido tio Gaspar Gama (o Gasparinho, como era carinhosamente chamado), frequentávamos a Assembleia, também na Praça da República, e outros centros de tertúlias, como a “Casa Valença” do Sr. Valencinha.  Nesta rota de saudade, não me posso esquecer da casa comercial do Sr. Junqueira, que era muito bem ajudado pelo seu funcionário. Um dia, vi na montra da sua loja (que ficava em frente da casa nobre dos Malheiro Reymão), um manequim que tinha, junto ao pescoço, um lindo lenço de homem. Adorei. Então, o Sr. Junqueira virou-se para mim e perguntou-me: – Toninho, gostas deste lenço? – Adoro-o, disse-lhe eu – Toma-o lá, é teu. E eu adorei. Ainda hoje tenho muitos lenços desses guardados e, quando ponho algum, lembro-me sempre do Sr. Junqueira. Curiosamente, no Colégio do Minho, fui colega de turma de um seu filho. Não posso esquecer que, também, perto da Praça da República, ficava outro centro de “tertúlia” na casa comercial do Sr. Zé Rancheiro. Quanta saudade, meu Deus… Hoje, quando vou a Viana, sinto nostalgias desses convívios e uma grande tristeza de ver a Praça da República, centro da cidade, quase deserta. Que pena, Deus queira que voltem a dar vida a essa lindíssima Praça. Que assim seja!

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