“Amados Quadros”

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Américo Carneiro

Pablo Picasso (Espanha, 1881-1973) 

– “Guernica” (1937), Óleo sobre Tela

 

Tudo está junto e transfigurado numa explosão de espanto e de dor nesta tela que atravessou vitoriosa como um manifesto todo o século XX, e que enquanto o século marchava, ampliava o seu efeito de denúncia corajosa, incentivando os artistas e criadores a saírem dos seus casulos e a tornarem-se solidários com os injustiçados, os censurados e os escravos de um sistema boçal que se ia tornando cada vez mais global e evidente – conforme nos chegávamos mais e mais ao século XXI – apesar das vergonhosas guerras feitas e desfeitas e da série infindável, escandalosa, de vezes que uma espécie de “paz podre” se lhes seguia…

Parece que, quando nos entregamos à observação da obra, um enorme GRITO está (e estará) para sempre cristalizado nela, um grito de horror, um grito de revolta, uma vaga de gritos de denúncia e de blasfémias contra um sistema de monstros alienígenas que odeia a Humanidade e que tudo fará para a aniquilar, de tudo tomando conta.

É o próprio Picasso quem o diz:- “Gritos das crianças, gritos das mulheres, gritos dos pássaros, gritos das flores, gritos das camas, gritos das árvores e pedras, gritos dos tijolos, dos móveis, dos carros, das cadeiras, dos cortinados, das panelas, dos gatos e do papel, gritos dos cheiros, que se propagam um após o outro, gritos do fumo, que pica nos ombros, gritos que cozem na grande caldeira, e da chuva de pássaros que inundam o ar.”

Trata-se, portanto, de um depoimento feito com as vísceras e com o coração, trata-se de um registo histórico feito com o sangue ainda quente sobre o terrível acontecimento, ocorrido em Abril desse mesmo ano: uma potência estrangeira invade o espaço aéreo de Espanha com os seus bombardeiros assassinos e faz da feliz aldeia de Guernica, no País Basco, um “campo de treinos” para a sua torpe tecnologia de morte e para a propaganda não de um regime antes sim de um “sistema” totalitário que, doravante, se quererá já descaradamente globalista, desumano, torcionário, genocida. 

Da parte esquerda da tela até além da metade direita dominam o Touro de Espanha que simboliza a Paixão, a ligação à Terra e a Força Vital de todo um Povo antigo; e o Cavalo de Espanha, símbolo de Idealismo, de Inteligência e Brilho de Espírito, postos ao serviço do Povo. Debaixo do Touro, como que acolhendo-se nele, está a Mãe com seu Filho morto, em forma de Pietá chorosa. E, esmagado e feito em pedaços, a Espada partida, está o Cavaleiro Espanhol, mais que Cid, talvez o Imortal Quixote de Cervantes, debaixo do Cavalo.

Na parte direita da tela, está uma figura que imediatamente nos lembra a figura central de “O 3 de Maio de 1808” de Goya. Como este, também levanta, energicamente, os braços. Não já como Cristo Salvador na Santa Cruz. Levanta ainda mais alto os braços retesados porque parece querer impedir que as bombas continuem a cair sobre o seu povo e a sua aldeia, o seu universo, afinal. É um Resistente.

E entre este e os outros nos chega um rosto e um braço com uma lanterna que vêm observar toda a cena. São os que Nunca Deixarão Que o Esquecimento Tome Posse de Guernica, o Pintor Picasso entre outros, muitos outros com certeza. Com eles, por baixo deles, esgueirando-se rente ao chão vem tudo admirar a Memória Futura e, quiçá!, o próprio Espírito da Justiça… 

N. R. – O Autor não segue as normas do novo Acordo Ortográfico.

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