“Amados Quadros”

Américo Carneiro
Américo Carneiro

Theo van Doesburg foi sempre um brilhante artista vanguardista, um profeta das voltas e reviravoltas que o Modernismo haveria de dar ao longo do século XX. Arquitecto e designer, poeta e artista plástico temperado por laivos de subida filosofia e de grande erudição, tendia a fundir numa só todas estas disciplinas e viria a fundar o Movimento “De Stijl” (“O Estilo”), com o seu amigo, colega e compatriota Piet Mondrian, em 1917.

E ele, que em 1908 havia realizado a sua primeira exposição de “Pintura Naturalista”, tal como a definia então, e que, em 1916, começara a trabalhar com base no “Abstraccionismo”, seria, uns anos mais tarde, o responsável pelos primeiros números da revista “De Stijl”, porta-voz do movimento neoplasticista com o mesmo nome (V. p.f., o artigo “XVII. Domela”, na rúbrica “Amados Quadros” d`”A Aurora do Lima” N.º 24, Ano 167, de 30.06.2022).

Depois, em 1921, Theo van Doesburg assumir-se-ia como o arauto da “Nova Tipografia” com a edição da revista MECANO, engrandecendo-se como Designer Gráfico e mantendo-se, nestes anos de 1921 a 1923, como defensor tenaz do Movimento “De Stijl” e do seu amigo Piet Mondrian.

No entanto, no ano de 1926, e ao escrever um manifesto no qual defende a “arte elementarista”, vem a romper com Mondrian e com o movimento que ambos tinham criado em 1917. Creio que a expressão “elementarista” cabe perfeitamente nos pressupostos do Suprematismo tal como tinham sido enunciados por Malevich em 1915 (o cultivo do Abstracto em formas geométricas e a negação da representação de ideias e objectos), adicionando-lhe as premissas do “De Stijl”, isto é, de que as cores primárias e apenas estas, o amarelo, o vermelho e o azul, deviam conviver com as “não-cores”, o branco, o preto e os cinzentos, numa relação dinâmica combinatória em que as cores, aplicadas uma a uma e uniformemente em superfícies planas, conquistavam a sua autonomia e supremacia enquanto eram delimitadas pelas “não-cores” em linhas verticais e horizontais. Só que, para van Doesburg, a introdução de linhas oblíquas era vital para a prossecução das suas composições, garantindo movimento e pontos de fuga aos elementos geométricos coloridos e às linhas que os delimitavam. Estas linhas delimitadoras de “não cores” passaram a desenvolver maior autonomia, a ganhar terreno às cores primárias e, até, a constituírem-se como base mais ou menos irregular para os seus acrobáticos cromatismos projectados em espaços “sem gravidade” onde, como veio a verificar-se em intervenções como esta no Salão de Baile-Cinema do Café Aubette de Estraburgo, coexistiam duas realidades distintas – tendentes a unirem-se -, uma “material/organização do espaço” e outra estética. Note-se a presença do laranja (vermelho+amarelo) e do verde (azul+amarelo), fora dos cânones dos primeiros anos do “De Stijl”. E, note-se também que, na coincidência entre a realidade material, organizadora do espaço construído, e a realidade estética, plástica, se realizavam as profecias de van Doesburg quanto à união entre a Arquitectura, o Design e as Artes Plásticas, numa nova forma de Arte de Viver, numa nova Arte Poética.

N.R. – O Autor não segue as normas do novo Acordo Ortográfico.

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