As Festas da Vianidade e a Galiza

Carlos Branco Morais
Carlos Branco Morais

Das festas religiosas e pagãs que, pelo estio, se faziam na vila de Viana, chegaram até aos nossos dias referências documentais que remontam ao século XVI. 

Segundo estas referências, nas festas de 1561, a filha primogénita de uma família da mais alta nobreza vianesa fugiu da vila com um fidalgo galego de Baiona, que a terá raptado… ou por quem se terá enamorado.  Os irmãos da primogénita intercetaram o casal, antes de atravessado o rio Minho. Regressados à foz do Lima, negociaram o dote da noiva e aqui casaram e tiveram filhos, de que são descendentes muitos vianenses, residentes no Alto Minho ou da nossa diáspora. E foi a escritura de quitação daquele dote, lavrada em 1564, que nos deu a conhecer esta história feliz.

Aquelas festas estivais continuaram a realizar-se e os casamentos entre vianenses e galegos também, mas só muito mais tarde, no último quartel do século XVIII, começou a emergir a Romaria de Nossa Senhora da Agonia, graças à devoção dos homens do mar, muitos deles vindos da Galiza e de outras paragens litorâneas.

Ao longo dos séculos XIX e XX, a Romaria evoluiu, acompanhando as mudanças políticas, económicas e culturais da sociedade e, também, as alterações urbanísticas e paisagísticas da foz do Lima. Assim, da monarquia absolutista e depois mais ou menos liberal, adaptou-se à república, mais autocrática que liberal, à ditadura e, nas últimas décadas, à democracia. Assim, a Romaria foi espelhando a sociedade e a economia agrária e comercial-marítima de Viana, que só em meados do século passado iniciou a sua industrialização e, a partir dos anos 70, abraçou a terciarização, em serviços públicos e sociais e no comércio, no turismo e no lazer.

Além da parte religiosa, das feiras francas, das tendas e dos comes e bebes, na Romaria, quase sempre houve ranchos de lavradeiras, bandas de música, zés-pereiras e gaiteiros, concertinas, violas e cavaquinhos, gigantones e cabeçudos, iluminações públicas e fogos presos e do ar. E sempre, sempre, muito povo da cidade, do concelho, do Minho e da Galiza e da diáspora vianense!

As paradas agrícolas da primeira metade do século XX foram dando lugar à procissão ao mar e aos cortejos etnográficos e históricos de representação de factos, figuras e quadros da vianidade, nomeadamente os relacionados com o Brasil. E, em 1993, Ano Jacobeu, a conjugação de vontades municipais e diocesanas, nacionais e galegas, possibilitaram a realização do Cortejo Histórico sob o tema “Caminhos de Santiago” que foi transmitido em direto, pelas televisões públicas de Portugal, Espanha e Galiza e por outras televisões. Este acontecimento de exaltação da história local e nacional e de relação com a Galiza teve repercussão internacional, sobretudo quanto ao interesse turístico da Romaria de Nossa Senhora da Agonia.

Celebremos, este ano, as Festas da Vianidade como contributo para que elas sejam, também, remédio contra a nossa endémica precariedade!

E, celebrando-as, reavivamos a consciência da dívida de gratidão aos vianenses da diáspora, quase todos leitores atentos de “A Aurora do Lima”, que, assumindo a sua vianidade, prolongam Viana para além dos limites do concelho, da região e até de Portugal!

Boas Festas!

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