Capela da Senhora das Areias

Francisco Carneiro Fernandes
Francisco Carneiro Fernandes

Na margem esquerda do estuário do Lima, em frente ao Centro Histórico de Viana do Castelo. Templo em cantaria de granito, com a cabeceira coroada de merlões chanfrados; fachada principal orientada para Nascente, com adro lajeado e alpendre. Empena truncada por sineira, tendo nos vértices dois merlões remanescentes.

NOTA: Os imóveis com ameias (aberturas entre merlões, para se avistar o inimigo, nas torres e muralhas defensivas) também são sinais exteriores de nobreza. Aos fidalgos reservava-se o uso de merlões a encimar as suas casas e portais, mas o mais importante é saber-se as virtudes por que passou o respectivo vínculo.

Mergulha raízes na Pré-Nacionalidade. Paróquia de Santa Maria de DarqueDe Sancta Maria de Darqui (Darqui Maiori e Darqui Minor, na doação de salinas) – como consta no Censual de Entre Lima e Ave elaborado entre 1085 e 1089 (ou 1091), devido à acção do Bispo D. Pedro, primeiro arcebispo da restaurada Arquidiocese de Braga.

Nas Inquirições Afonsinas (1220 e 1258), Paróquia de Santa Maria de Areias Sancta Maria de Arenis – com a menção de freguesia nas Inquirições de D. Dinis (1290). Assim se manteve como Igreja de Santa Maria de Areias até aos últimos decénios da centúria de Quinhentos (ou “da Senhora das Areias”, que fora vigararia de apresentação do abade de Santiago de Anha), até à edificação de um templo mais a Nascente, em “Darque Menor”, e com outro Orago: Matriz da Paróquia de São Sebastião de Darque. Com efeito, a progressiva movimentação das dunas para o interior obrigou, nas últimas décadas do século XVI, à transferência da Matriz de “Darque Maior” para “Darque Menor”.

A primitiva imagem de Santa Maria das Areias, de Darque – Nossa Senhora com Deus-Menino, sentada – é uma escultura de madeira policromada dos séculos XI-XII, da época Românica ou de transição Românico-Gótico. Encontra-se há décadas em Braga – depois de cedida temporariamente, antes da criação da Diocese de Viana, para uma mostra de Arte Sacra – onde pode ser contemplada em exposição permanente no Museu Pio XII: Museu de Arte Sacra e Arqueologia, no edifício do Seminário Conciliar de Santiago.

Imagens de Nossa Senhora das Areias, bem mais recentes, contemplamos na Capela da margem esquerda do Lima: na tribuna do retábulo e na nave, numa embarcação com rede florida- Oratórios com as imagens de S. Sebastião, S. Roque, Nossa Senhora dos Navegantes (ou da Bonança), Nossa Senhora da Soledade e Sagrado Coração de Jesus. Invocações diversas da gente ribeirinha, relacionadas com a pesca e, principalmente, com a agricultura, tradicional em Darque ao longo dos tempos, para que a água nunca falte, “com conta, peso e medida”.

A Festa em honra de Nossa Senhora das Areias realiza-se no primeiro fim de semana de Agosto, com início na 5.ª feira. Singela, mas antiga e viva no coração e alma Darquense, atraía romeiros das terras do Vale do Neiva e das duas margens do Lima, como no-lo testemunham registos fotográficos já centenários (“Illustração Catholica”, Braga, Agosto de 1913 e 1914, in “Blogue do Minho”, por Carlos GOMES).

Na procissão incorpora-se Nossa Senhora do Porto, da Capela da Casa e Quinta de São Lourenço, no lugar de Cais Novo, à face da E.N. 13, junto do Centro Pastoral Paulo VI: imagem exposta no trono sobre um sacrário monumental de retábulo em talha antiga, em estilo Maneirismo, anterior ao Barroco do século XVII. 

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Retábulo Barroco, de talha dourada em “Estilo Nacional”. Modelo de transição do século XVII para o século XVIII (reinado de D. Pedro II). Frontal de altar adornado com motivos florais policromados, emoldurados por cercadura de talha dourada. Profusa decoração com folhagem de acantos, pâmpanos, cachos de uvas, meninos, fénix e querubins, desde o ático até ao embasamento, incluindo a banqueta e mísulas das colunas espiraladas.

Bibliografia:

FERNANDES, Francisco José Carneiro: Talha – Roteiro no Concelho de Viana do Castelo, ed. Câmara Municipal de Viana do Castelo, Janeiro 2019; Heráldica – Roteiro em Viana do Castelo: Centro Histórico, Envolvente Urbana, Darque, ed. Câmara Municipal de Viana do Castelo, Julho 2021.

SILVA, Fernando A. Ricardo da: “O Cemitério na Igreja de S. Sebastião de Darque”: Um Contributo para o seu Estudo”, Cadernos Vianenses, Tomo 49, Viana do Castelo, 2015, pp. 255-292 (Cf. Bibliografia cit. de Luís Carlos AMARAL e de Pe. Avelino de Jesus da COSTA).

N.R.: O Autor não segue o novo acordo ortográfico

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