Capela de S. João d’Arga

Francisco Carneiro Fernandes
Francisco Carneiro Fernandes

Templo setecentista, na meia-encosta do Monte de Santa Luzia sobranceiro à urbe vianesa, no lugar de Valverde, ainda nos limites da cidade e integrado na Paróquia de Santa Maria Maior.

Esta capela terá sido edificada no 1.º quartel do século XVIII, conforme referências a “inventários” provavelmente realizados em 1722 e em 1724, sendo «datado de 1737 e solidamente encadernado, o livro de “eleições” e “inventário” da “Fábrica do Milagroso Senhor São João”, invocado vulgarmente – de Arga –, cuja Capella he situada nos arrabaldes desta Villa de Vianna», livro com referências a eleições e “inventários” mais antigos. (Vd. Bibl.: ARAÚJO)

Frontaria com remate em frontão curvilíneo, recortado, e empenas onduladas em voluta; recorte sinuoso nas janelas laterais. São elementos característicos do estilo Rococó do 3.º quartel do século XVIII, mostrando similitude com os elementos correspondentes nas fachadas da Igreja da Senhora da Agonia. Também são visíveis outras intervenções de reforma da Capela de S. João de Arga, na transição do século XVIII para o século XIX. A encimar a porta principal, sob um arco ligeiramente curvilíneo, moldura de fino recorte, suavemente ondulado, em voga no reinado de D. Maria I (último quartel do século XVIII).

Dispõe esta capela de logradouro próprio, com dois adros frondosos, faceados pela Estrada de Santa Luzia e pelas quelhas do Peneireiro e do Camarido. Sob a escadaria de dois tramos, que nos conduz ao adro superior, oratório-cascata dedicado ao Santo Precursor de Jesus (O Messias prometido).

Na memória colectiva, baila a quadra “sanjoanina” no dia do nascimento de São João Baptista, 24 de Junho; reavivada, no “dia” do seu martírio e morte, 29 de Agosto, com festividade e leilão de oferendas. Na década de 1980, ainda abria ao culto, mensalmente, com celebração de Missa vespertina (aos sábados).

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Na NAVE sobressai, em escaparate envidraçado, com talha Neoclássica, a iconografia alusiva à Degolação de São João Baptista. “Ex-votos” de cera (cabeças) em seu redor. 

Na parede do lado da Epístola, um quadro de Indulgências, com os seguintes dizeres: «Sua Alteza Real concede / 40 dias de Indulgências / perpetua a todas as Pessoas / que vezitarem a Capella / de S. João d’Arga no / dia da sua Festividade». (Como se sabe, noutros tempos, era privilégio real conceder destes benefícios espirituais, passando posteriormente tal a ser exclusivo papal).

No lado do Evangelho, expressivo grupo escultórico de Nossa Senhora do Resgate.

No “arco-cruzeiro”, sanefa da 2.ª metade do século XVIII, com pintura policromada, em tromp l’oeil fingindo concheados entalhados em estilo Rococó.

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Na CAPELA-MOR, retábulo de madeira dourada e policromada, com pintura a fingir pedraria, no ático e entablamento, nas colunas, no embasamento e frontal de altar. Estrutura retabular de planta convexa, três tramos e um único corpo. Ornamentação em baixo-relevo: grinaldas de flores, folhas de acanto e folhagens pendentes; denticulados, rosetas, entrelaços de louro e outros ornatos de tratadística clássica, desde a cimalha até ao altar trapezoidal. As colunas, de fuste liso diferenciado no terço inferior, são rematadas por urnas, com decoração característica do “Estilo Luís XVI”: Neoclassicismo inicial, últimas décadas do século XVIII. O ático é rematado por um frontão de volutas em S, donde emerge uma vistosa palmeta. O sacrário apresenta volutas e concheados estilizados em estilo Rococó. No trono, São João Baptista, com o cajado e o cordeiro.

     Na SACRISTIA, de entre algumas preciosidades, imagem antiga do Precursor, de túnica vermelho roxa (figurando a austeridade e o jejum), livro, cordeiro, cajado e flâmula com texto em Latim: “Ecce Agnus Dei” (Eis o Cordeiro de Deus), simbolizando a revelação de Deus através de João Baptista.1

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¹ O acesso à Capela de S. João d’Arga, em 28-9-2017, foi facultado pelo Dr. António José Monteiro Afonso, a quem o Autor agradece.

Bibliografia:

ARAÚJO, José Luís Rosa de: “S. João de Arga”, in A Aurora do Lima, Ano 151, n.º de 15-9-2006, p. 14.

CRESPO, José: Monografia de Viana do Castelo, ed. Câmara Municipal de Viana do Castelo, 1957, a p. 29.

FERNANDES, Francisco José Carneiro: “Capelas de Viana”, Cadernos Vianenses, tomo 6, Dezembro 1981; Viana Monumental e Artística, GDCT dos Estaleiros Navais de Viana do Castelo, 1.º e 2ª ed. 1990; Tesouros de Viana – Roteiro Monumental e Artístico, GDCT ENVC, 1999; Talha – Roteiro no Concelho de Viana do Castelo, Câmara Municipal de Viana do Castelo, Janeiro 2019.

 

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