Capela do Monte de Santo António

Francisco Carneiro Fernandes
Francisco Carneiro Fernandes

Talvez desconhecido, para a maioria dos vianenses, o valioso Património da 2.ª metade do século XVII no interior da Capela de Santo António em AFIFE, ermida que só abre ocasionalmente.

Após um interregno de 10 anos, as tradicionais Festas de Santo António regressaram em 2019, juntando-se às Festas de Santa Cristina, a padroeira da freguesia de Afife. Festa em honra de Santo António e Santa Cristina, reeditada em 2022, de 21 a 24 de Julho, com arraiais, leilão de oferendas, actuação do Rancho de Danças e Cantares de Afife e celebrações religiosas, tais como: Procissão da Capela do Monte de Santo António para a Igreja Paroquial e Missa; a 24 de Julho, Festa litúrgica da Mártir Santa Cristina (f. 24-VII-c. 300), na Igreja e Procissão ao Cruzeiro.

Com efeito, na orla costeira entre os rios Lima e Âncora – de arriba fóssil ligada à tectónica (vertente ocidental da Serra de Santa Luzia), com plataforma de abrasão e deposição – resistem à erosão dos tempos duas elevações de afloramentos rochosos habitados desde a pré-História e com povoamento intenso na Idade do Ferro (desde c. séc. V a. C): Montedor, hoje um lugar de CARREÇO, com Farol a mais de 100 m de altitude, erigido sobre as ruínas de um povoado castrejo da Idade do Ferro; Monte de Santo António, AFIFE, antigo Castro, posteriormente “romanizado”.

Montedor – jamais “Monte de Montedor” que é uma redundância ou pleonasmo vicioso de linguagem – tem a seguinte origem etimológica, como nos explica o investigador ALMEIDA FERNANDES (Vid. Bibl.): OR (f. Carreço): 1068 «Oori et Carrezo» AV 6; 1258 «Carrezo… in Honri davandita vila de Hori» IS 328 [Inquirições de D. Afonso III]. 1041 Odorio DC 321; 1085 Odorio DC 634. «O velho topónimo Or persiste no complexo Monte de Or, hoje aglutinado na forma Montedor. Significa isto que o topónimo primitivo foi absorvido pelo novo (um fenómeno muito corrente), e a razão é fácil aqui de avaliar: sem dúvida o facto natural de o monte ser contrastante na paisagem desta faixa de abrasão, dominando-a plenamente. […] O que se passa, ideogenicamente, com Monte de Montedor respeito a Montedor (Monte de Or) passou-se, sem qualquer dúvida, com Montedor em relação a Or – ou seja, o esquecimento ou obliteração de Or, que, como fica documentado, ainda vigorava nos meados do século XIII.»

Castro de Afife, numa colina residual de substrato granítico-alcalino, com a designação de “Monte de Santo António” desde as últimas décadas do século XVII. Subsistem vestígios de uma pequena parte do “habitat” proto-histórico (estruturas em pedra: pano da antiga muralha, algumas casas circulares e uma de contorno oval), porque a edificação da ermida, do adro e da escadaria de acesso implicou a destruição significativa deste povoado castrejo, nas vertentes orientadas a S, SE e NE. NOTA: Espólio de várias campanhas de escavações pode ser contemplado no Núcleo Amador de Investigação Arqueológica de Afife (NAIAA). 

A cerca de 70 m de altitude, o Monte de Santo António é um miradouro sobre a “concha azul e verde” de Afife atravessada pelo “rio dos Poetas” em Cabanas (com destaque para Pedro Homem de Mello, de Afife enamorado) e em Fátria, até beijar o mar em suaves praias… E panorama sobre a “Veiga”, para Sul, até à Areosa – Terra de Santa Maria de Vinha (Ovinia remota), às portas de Viana e da foz do Lima. Outrora rodeado de frondoso arvoredo, certamente está a ser objecto de um programa de reabilitação: eliminação da vegetação infestante; reflorestação com espécimes autóctones: folhosas caducifólias, como carvalhos e castanheiros. 

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Revisitemos a Capela do Monte de Santo António. Relevada na padieira da porta virada ao Nascente, a data de 1685.

A Capela-Mor reserva motivos de interesse: tecto lavrado em cantaria de granito; talha do Maneirismo (estilo que precede o “Primeiro Barroco”); revestimento azulejar de “tapete”, seiscentista, em padrão P-17-01001 de “maçaroca” a azul e amarelo alaranjado, a envolver dois painéis hagiográficos, policromos, de grande valor iconográfico, com cercadura naturalista: Santo António (lado do Evangelho); São Domingos (lado da Epístola), tendo a seus pés um cão, com uma vela acesa na boca: Símbolo da verdadeira Fidelidade, com a chama para iluminar os corações da humanidade, através da Ordem dos Pregadores, ou Dominicanos (Domini canis: “cães [servos] do Senhor”).

Retábulo-mor representativo do Maneirismo seiscentista em “Estilo Arquitectónico”. De madeira com primoroso entalhe, dourado e policromado, apresenta planta recta, dois corpos (pisos) e um único tramo. A delimitar o segundo piso, consolos de volutas contracurvadas; no corpo principal rematado por entablamento contínuo, colunas duplas, as interiores de estrias helicoidais e as exteriores decoradas com folhagem de acanto. Frisos de denticulado, óvulos, folhas de acanto e flores de cardo, frutos, querubins, mísulas de volutas contracurvadas e cartelas de enrolamentos e ferroneries marcam presença neste retábulo.

No eixo, desde o ático até ao embasamento, representações de vincado simbolismo: águia robusta, alegoria à Fénix renascida; cabeça volante de anjo sobredimensionado, flanqueado por dois “mascarões”; Cordeiro de Deus; querubim e pássaros no friso central; mascarão ou carranca “para afugentar o maligno”, a coroar arquivolta plena. Num nicho, imagem de vulto perfeito de Santo António com o Menino, assente numa tribuna preenchida com relevos policromos: Ecce Homo, Senhor dos Passos e Calvário. Nos plintos que suportam as colunas, molduras de enrolamentos e ferroneries do Maneirismo ítalo-flamengo, a enquadrar painéis em relevo policromado: João, O Precursor, a Baptizar Jesus; e Jesus a Baptizar, no seu ministério itinerante.

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Bibliografia:

ALMEIDA, Carlos Alberto Brochado de: Proto-História e Romanização da Bacia Inferior do Lima, Estudos Regionais, CER, Viana do Castelo, 1990.

ALMEIDA, Carlos Alberto Ferreira de: Alto Minho, Editorial Presença, Lisboa, 1987.

ALMEIDA FERNANDES, Armando de: “Toponímia Vianense”, Cadernos Vianenses, Tomo V, Junho 1981, (139-206), a pp. 181-183. 

FERNANDES, Francisco José Carneiro: Azulejo – Roteiro no Concelho de Viana do Castelo, ed. Câmara Municipal de Viana do Castelo, Junho 2017; Talha – Roteiro no Concelho de Viana do Castelo, ed. Câmara Municipal de Viana do Castelo, Janeiro 2019.

OLIVEIRA, Nuno; BETTENCOURT, Ana M. S.: “O Povoado Proto-Histórico de Santo António (Afife, Viana do Castelo): Dados e Reflexões sobre as suas Materialidades”, Congresso Internacional “Cultura Castreja”, Universidade do Minho, pp. 215-240, in: repositorium.sdum.uminho.pt (acedido: 23-IX-2023)

N.R.: O Autor não segue o novo acordo ortográfico

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