Entendam-se homens, entendam-se

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Neste país dos tão propagados “brandos costumes”, os poderes maiores resolveram fazer birras e assumi-las publicamente. Na nossa já madura democracia, tal não constitui novidade. Boa parte de nós, bem se recorda de que Ramalho Eanes conflituou com Mário Soares e que este, por sua vez, nunca estimou, e até “minou”, Cavaco Silva, apesar de uma lua de mel fictícia entre ambos no seu primeiro mandato; de que o fleumático Jorge Sampaio despachou, sem apelo nem agravo, Santanas Lopes de chefe do governo; e de que, por sua vez, Cavaco detestava Sócrates e indispôs-se, até à náusea, quando empossou António Costa, porque não concordava com a Geringonça. Por isso, os agastamentos entre os mais importantes Órgãos de Poder, goste-se ou não, são uma velha realidade.  

Naturalmente, ninguém é obrigado a ter relações amistosas com quem não estima, mas isso é para o comum dos cidadãos, não sendo bem assim para personalidades que exercem as mais importantes funções na governação da nação. A democracia tolera, e até acarinha, a divergência, porque salutar e estimuladora do debate de ideias, mas não se honra com um Presidente da República e um primeiro-ministro permanentemente às turras, com picardias de um e outro lado. E, mais grave, quando fazem emperrar a governação do país, adiando a solução de problemas que exigem celeridade. Depois, temos alguma Imprensa que se sente como peixe na água a explorar este folhetim bizarro, aprofundando-o até ao incómodo, ao ponto de se deslocar à praia para entrevistar o PR, quando se devia preocupar com coisas bem mais sérias que diariamente acontecem.

Em 2024, completam-se 50 anos de poder em liberdade. É meio século de aprendizagem na forma de nos relacionarmos; de nos responsabilizarmos para construir uma sociedade evoluída; de sabermos conviver com poucos ou nenhuns agastamentos, para nos fixarmos nos problemas que nos atormentam – que são muitos – e somos confrontados com o mau estar entre os dois cidadãos a quem confiamos a gestão da Pátria.

Estamos perante uma postura pouco simpática, incómoda e, pode dizer-se, antipedagógica. Estas duas personalidades reúnem na quinta feira de cada semana para tratar dos assuntos de Estado, sendo lógico interrogarmo-nos sobre quais são as razões que os levam a vir depois para a praça pública, como damas ofendidas, manifestar mau estar entre ambos. É caso para dizer: entendam-se homens, entendam-se!…

                                                              GFM 

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