José Vieira: o cineasta da emigração portuguesa

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Daniel Bastos

No ocaso do passado mês de abril, o “6.doc”, iniciativa do Doclisboa e do Cinema Ideal que procura conceber a realidade através de novas formas cinematográficas de perceção, reflexão e ação, colocando o cinema em diálogo com a sua história, de modo a questionar o seu momento atual, incluiu na sua programação o filme “Nós Viemos” do realizador José Vieira, reconhecido cineasta da emigração portuguesa. 

Natural de Oliveira de Frades, uma vila da Beira Alta situada no distrito de Viseu, José Vieira partiu para França em 1965, com sete anos de idade. A sua experiência pessoal como emigrante e as muitas histórias compartilhadas com outros emigrantes em terras gaulesas, inspiraram assertivamente o percurso profissional do realizador que vive e trabalha entre Portugal e França.

Licenciado em Sociologia, José Vieira fez do documentário “uma forma de militância”, porquanto se apercebeu de que a maioria das pessoas “não conheciam a história da emigração portuguesa”, como afirmou em 2016 no decurso de uma entrevista à agência Lusa.

Desde a década de 1980, o cineasta lusodescendente realizou uma trintena de documentários, nomeadamente para a France 2, France 3, La Cinquième e Arte, onde tem abordado sobretudo a problemática da emigração portuguesa para França. Em particular a viagem “a salto”, ou seja, o trajeto clandestino para deixar Portugal rumo a França nos anos 60 e 70, e as condições de vida miseráveis de muitos compatriotas que nessa época habitaram nos “bidonvilles (bairros de lata) em Paris.

No rol das suas películas dedicadas à emigração portuguesa destacam-se, por exemplo, “A fotografia rasgada” (2002), onde José Vieira retrata o código da fotografia rasgada do “passador”, que guardava metade da fotografia de quem emigrava e a outra levava-a o emigrante que, uma vez chegado ao destino, a remetia à família, em sinal de que chegara bem e que poderia ser concluído o pagamento pela sua “passagem”.

Os documentários “O país aonde nunca se regressa” (2005), “Le bateau en carton” (2010) e “A ilha dos ausentes” (2016), que de certo modo descrevem a sua própria experiência de emigrante, são igualmente parte integrante do valioso trabalho cinematográfico de José Vieira sobre os protagonistas anónimos da história portuguesa que lutaram além-fronteiras por uma vida melhor. 

No seu mais recente filme “Nós Viemos” (2021), José Vieira traça um retrato sobre os emigrantes do passado e do presente, com o intuito segundo o mesmo de “perceber o que há em comum entre estas pessoas”. Prosseguindo o espírito de Miguel de Cervantes, que asseverava em “Dom Quixote de la Mancha” que a “história é émula do tempo, repositório dos factos, testemunha do passado, exemplo do presente, advertência do futuro”, José Vieira escora que vê “o que se está a passar e não consigo esquecer. Se enterrasse a cabeça, talvez. Por isso é que fiz este filme”. 

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