Mercados e utopias

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José Veiga Torres

“Mercado” é uma das nossas palavras mais frequentes. Usa-se, quotidianamente, em referência ao lugar em que nos abastecemos dos bens de primeira necessidade. Mas ouve-se, agora, com mais frequência, falar de múltiplos mercados: mercado de bens, mercado de serviços, mercado de trabalho, mercado financeiro, mercado monetário, mercado fiduciário, mercado tecnológico, etc.etc., até já se fala do mercado do carbono (para o direito de poluir).

Em todas estas espécies de mercado há um fundamento comum: trata-se de uma relação humana de transação de bens. É, talvez, a relação humana mais expressiva da evolução da espécie humana, da sua diversificação de tarefas, de interesses, de complementaridade e até de domínio, nas sociedades mais simples e primitivas e nas mais complexas de hoje. 

O mercado existe porque os seres humanos não são iguais e precisam de complementar-se uns aos outros, nas suas respetivas necessidades. Nas sociedades mais simples as transações realizavam-se numa relação direta de pessoa a pessoa. Era o sistema mais igualitário e complementar da “troca”. Quando as sociedades se foram tornando mais complexas, necessitadas ou simplesmente desejosas de novos bens menos acessíveis, obtidos por maiores esforços, ou provindos de regiões mais longínquas, as transações tornaram-se também mais complexas. Os bens transacionados representavam valores muito diversos e dificilmente igualitários. Por exemplo, quando as sociedades da revolução neolítica (há cerca de dez mil anos) descobriram que, com os metais produziam mais e melhores bens agrículos, para os obter teriam que trocá-los por cereais. A transação exigia calcular o valor de uns e de outros, pelos custos de uns e outros, o que, inicialmente, não era fácil. Havia que fazer  avaliações múltiplas do custo das viagens, do uso dos meios de transporte, do custo da exploração mineira e ainda do valor das respetivas quantidades e qualidades dos bens a transacionar, nem sempre equivalentes. O indispensável esforço contabilístico exigiu-lhes a invenção da escrita e depois a invenção de um instrumento de representação (pelo menos simbólica) dos valores dos produtos, que fosse aceite por todos os intervenientes nas transações: produtores, consumidores e intermediários. Esse instrumento seria a moeda, inicialmente apenas uma representação de valor e mais tarde também um produto e um valor autónomo. 

Na medida em que o sistema de mercado se alargava, em variedade de produtos e por espaços mais amplos, por Regiões longínquos, como assegurar que as relações mercantis fossem cordatas e justas? Como garantir o valor e a fiabilidade da moeda utilizada? O sistema de mercado tornava-se um sistema de relações conflituosas entre interesses diferentes de povos diferentes e concorrentes. Daí nasceu o Estado, como representante e regulador dos interesses coletivos em disputa. Com o sistema de mercado nasceram os Reinos e os Impérios. Ao redor dos poderes mercantis se construíram os poderes aristocráticos, os poderes militares e até os poderes religiosos (ideológicos). A importância dos mercados deu, depois, origem a teorias de mercados, originando uma ciência, a Economia, com a pretensão de ser a reguladora das sociedades.

Qual será a relação dos mercados com as utopias? O que é uma utopia? A palavra “utopia” significa “sem lugar”. Foi usada pelo humanista Thomas More (1477-1535) como título da obra em que pretendia descrever uma sociedade ideal de regulação totalmente harmoniosa e pacífica. Desde então designa-se de utopia qualquer modelo ideal de sociedade que resolva todos os problemas humanos, particularmente as suas desmedidas ambições de domínio. Não foi casual a Utopia de Thomas More, chanceler da Inglaterra de Henrique VIII e por este mandado decapitar, numa época (1535) em que os poderosos mercados europeus se lançavam em forte e agressiva concorrência pelos mercados dos outros continentes, numa extraordinária globalização, que foi o princípio das grandes dominações coloniais. A globalização mercantil tornava-se também a globalização das violências coletivas. Estava-lhe subjacente a utopia de uma universal civilização europeia.

Vivemos, hoje, num contexto de globalização conflituosa semelhante ao das pretensões expansionistas do século XVI, mas muito mais complexo e mais perigoso. O domínio mercantil, financeiro e tecnológico da economia neo-liberal de hoje, pretende ser o supremo modelo ordenador civilizacional das sociedades modernas, mundializado, superiorizando-se aos Estados e dominando-os até. Representa uma verdadeira e perigosa utopia. Está na raiz da atual conflitualidade geopolítica, em paralelo com o perigoso modelo dos estados totalitários.

As utopias nascem das profundas e reais aspirações humanas, mas, quando funcionam como pretexto (tácito) de dominação, representam a maior perversão das relações sociais.

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