O chá açoreano da Ilha de S. Miguel

Alfredo Faria Araújo
Alfredo Faria Araújo

A laranja foi durante muito tempo o principal motor da economia micaelense, mas quando esta cultura entrou em declínio, devido a uma doença que dizimava os laranjais e depreciava o valor do fruto, especialmente para exportação, é que se tentaram várias outras culturas de igual eficácia. A única que vingou foi a cultura do chá. Julga-se já ter existido chá na ilha antes do início do século XIX, mas só na segunda metade deste século é que se cultivou a sério e atingiram-se produções que muito entusiasmaram as famílias mais abastadas da ilha a cultivá-lo.

As primeiras sementes tiveram origem no Brasil.

Como o chá era cultura completamente desconhecida nos Açores, foram chamados dois chineses de Macau, um como técnico e outro como ajudante e interprete. Nos finais do século XIX já se atingiam boas produções e começaram a surgir as primeiras fábricas. No entanto, já em pleno século XX, com a revolução do 25 de Abril de 1974 tudo se deitou a perder, devido à emigração verificada e às alterações nas leis laborais, só resistindo a fábrica de chá Gorreana que se manteve a laborar desde 1883 até aos nossos dias sem interrupção.

O chá é obtido a partir de folhas secas da planta Camellia Sinensis da família das Teáceas. Esta planta inclui compostos bioquímicos que são os polifenóis que incluem flavonóides, que  se encontram também nos vegetais e em frutas, sendo antioxidantes, impedindo degenerescência de células responsáveis de inúmeras doenças. Segundo estudos mais atuais, o consumo regular de chá impede coágulos causadores da maioria de ataques cardíacos e acidentes vasculares e outros; indicam o impedimento de outros tipos de cancro como os do aparelho respiratório e digestivo ou da pele. Todo o chá provém da mesma planta e seus híbridos, sendo a diferença na seleção das folhas e tratamentos.

Existem cerca de 3.000 variedades, diferindo no sabor e nas características em função da região de origem, das condições atmosféricas, da variedade e da altitude a que o chá é produzido.

A dona dos terrenos da Gorreana, Ermelinda Pacheco Gago da Câmara, em 1883 produziu o seu primeiro chá. O terreno argiloso e ácido, a chuva intensa e o clima húmido proporcionavam boas condições de produção e de qualidade. Após a morte de Ermelinda, sua herdeira Angelina Gago da Câmara, casada com Jaime Hintze, tendo este introduzido a mecanização usada no enrolamento, secagem e na calibração da folha. Tendo a sorte de os terrenos da Gorreana serem atravessados por um ribeiro, montou uma mini-hídrica, tendo provocado uma redução dos custos de produção. Como consequência, esta propriedade e fábrica conseguiram sobreviver, mas as restantes encerraram.

Quando a planta tem 3 folhas e os rebentos colhidos, as folhas são transformadas em chá preto, verde ou oolong através de determinados métodos diferentes.

No chá preto, as folhas, depois de murchas são enroladas e esmagadas parcialmente e expostas ao ar, sofrendo um vagaroso processo natural de oxidação e, depois de oxidadas, são secas.

No chá verde, as folhas, depois de murchas, são esterilizadas com vapor de água que antecipa a oxidação e, após o enrolamento, procede-se de maneira a manter a cor verde, obtendo-se um chá rico em tanino e antioxidante.

Como as plantas têm idades diferentes e composições diferenciadas, cada uma das folhas dará um chá com sabor e aroma diferente.

No chá preto, da primeira folha extrai-se chá aromático e leve, da segunda folha extrai-se chá com aroma intenso, e a terceira folha dá chá com aroma leve e pobre em teína.

O chá verde, a partir das três folhas ou da primeira folha o chá é suave e aromático.

Presentemente, a Gorreana produz cerca de 40 toneladas / ano nos seus 37 hectares de plantação. O seu chá é tratado sem produtos químicos e exportado principalmente para a Alemanha, França, Estados Unidos e Canadá.

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