O regresso da Alegria

Ricardo Simões
Ricardo Simões

A pandemia impôs que o Teatro Municipal Sá de Miranda fechasse no dia 13 de março de 2020, quando milhares de crianças iam diariamente ao teatro com as suas escolas. De resto, é algo que em Viana do Castelo acontece há muitos anos. Remonta mesmo, e já, à última década do século passado, todas as instituições de ensino do concelho disporem de uma oferta regular e profissional de espetáculos de teatro. Mas, pela primeira vez desde 1991, a partir daquele dia 13 de março (uma sexta-feira, por sinal), interrompeu-se esse fluxo tão importante: justamente, o dos públicos do futuro. E seguiu-se aquilo que ainda bem lembramos, e devemos manter presente, por ainda não ter acabado: confinamentos, restrições, adaptações, medo. Sobretudo, “aquele” medo. Ainda não temos o distanciamento necessário para podermos fazer o deve e o haver de tudo quanto vivemos nos últimos dois anos, nem a capacidade de perceber com rigor o que é que isso nos fez mudar: para melhor, e para menos bem. Com efeito, as feridas da pandemia ainda nos são demasiado visíveis, e pese embora a vontade coletiva de atirarmos a malapata para trás das costas, esta ainda está presente em nós, começando nas máscaras de proteção, passando pela estranheza que agora sentimos quando queremos dar um simples aperto de mão ou um beijo na face de alguém e acabando nos números diários de contágios e óbitos, que ainda não são zero. No entanto, no dia 23 de fevereiro último, quando faltavam apenas 18 dias para que o teatro completasse dois anos inteiros sem acolher públicos escolares, eles e elas voltaram. Crianças. Às duzentas, e por vezes mais do que isso, de cada vez. Com idades entre 3 e 10 anos. E até 18 de março, de quarta a sexta, às 9h30 e às 11h00, milhares de crianças de todo o Alto Minho voltaram a usufruir do seu direito constitucional de aceder à fruição cultural, no caso, no seu teatro “Sá de Miranda”, para ver um espetáculo da companhia que ali foi fundada e que ali reside desde 1991, com transporte assegurado pelo Município de Viana do Castelo. Depois de dois anos de cadeiras vazias, frias e caladas, é ainda mais compensador ver as crianças encher o teatro. Porque, também ali, elas são a alegria.

Outras Opiniões

Os leitores são a força e a vida do nosso jornal Assine A Aurora do Lima

O contributo da A Aurora do Lima para a vida democrática e cívica da região reside na força da relação com os seus leitores.

Item adicionado ao carrinho.
0 itens - 0.00

Ainda não é assinante?

Ao tornar-se assinante está a fortalecer a imprensa regional, garantindo a sua
independência.