Olaria de Lanheses

Rui Maia
Rui Maia

Lanheses, freguesia do concelho de Viana do Castelo, guarda nas entranhas das suas terras restos de cerâmica de tempos castrejos e romanos, na Cividade, no lugar de Outeiro. 

Quem diria que aquele lugar, beijado pelo Lima, esculpido pelo seu temperamento, fosse pouso de tal criatividade?  Ela, a criatividade na arte da olaria, em Lanheses atravessa os tempos, pelo que, mais tardiamente, na época Medieval, por ali se fabricavam tijolos, telhas de cano grosso, baldosas ou vasos com formato de bilhas. Daí por diante, até meados do século XX, Lanheses foi palco de atividade cerâmica, onde predominavam pequenas unidades de tipo familiar, dedicadas ao fabrico de tijolos e telhas mouriscas. A telha proveniente de Lanheses era de excelente qualidade. Há quem refira que a telha de Lanheses foi aplicada no Convento de Mafra, obra essa mandada edificar pelo monarca D. João V, na primeira metade do século XVIII. O certo é que, na segunda metade desse século, saiu da barra de Viana do Castelo muita telha com destino a Lisboa e a outros pontos do país. Inúmeras referências apontam a fornos de cozer telha e eiras de barro, um pouco por toda a freguesia. Não obstante, no termo da I Grande Guerra Mundial, existiam mais de três dezenas de fornos. 

No arranque de Oitocentos chegou a Lanheses um oleiro oriundo de Prado – João Machado da Rocha – que introduziu o fabrico de louça preta. João Rocha, em comunhão com alguns dos seus filhos, casados com gentes de Lanheses, laboravam em oficinas familiares, cujo trabalho era distribuído por idades e sexo. Esses empreendedores de então, produziam cântaros, panelas, caçoilas, púcaros, chocolateiras, copos, entre outros – mas sem vidrado. As mulheres dedicavam-se ao comércio de tais artefactos nas feiras da região. O fabrico de louça preta em Lanheses estendeu-se desde 1810 até 1940, passando de geração em geração – através dos filhos de João Rocha, seus netos, bisnetos e tetranetos.

A partir da década de 1940, com o apoio da fábrica de  – José Agra & C.ª – os últimos oleiros – Manuel Franco e Damião Palma – dedicaram-se à produção de talhas e infusas vidradas, chocolateiras, garrafas, cântaros, alguidares, coadores com furos e cantarinhas de barro vermelho. A arte desses artesãos fez parte de paradas das festas em honra de Nossa Senhora d’Agonia e em inúmeras exposições de artesanato. A louça de Lanheses, ao contrário da fabricada em Meadela, que era de porcelana “grés fino”, era faiança. Os oleiros de Lanheses tinham um segredo, que dizia respeito à composição da pasta; adicionavam ao barro vermelho sangue de boi; o qual não conferia cor, mas sim, uma certa gordura à terracota; a determinadas peças adicionavam ferrugem. A pasta era acondicionada em cinza, devido à tinta ser absorvente, pelo que a cozedura de uma pasta menos húmida era mais célere. As tintas com as quais pintavam a faiança provinham da Alemanha. A cozedura realizava-se a 500º, todavia, o processo de vidragem exigia 1100º. 

Entretanto, na segunda metade do Século XX, Domingos da Rocha Santos, conhecido por “Domingos da Borralha” e João Gonçalves da Quinta, conhecido por “João das Teresas”, fundaram a primeira fábrica de natureza industrial, situada no Lugar do Barreiro – Fábrica das Mimosas – que passou a fabricar tijolo e telha marselhesa. Passados 10 anos, com a separação das Sociedades, surgiu a fábrica Matos e Gonçalves – Fábrica do Barreiro. Mais tarde, Domingos da Rocha Santos funda uma segunda fábrica em local distinto, mais moderna, apetrechada com forno automático (sua invenção), cuja patente registou. Após a sua morte, a fábrica foi adquirida por Manuel João Gonçalves, denominada – Fábrica Gonçalves, Lda., Fabril do Barreiro. Em 1942, José Martins Agra, conjuntamente com Manuel Araújo e Palmira Sequeira da Silva, fundaram a fábrica – José Agra & C.ª – no Lugar da Rocha, dedicada ao fabrico industrial de telha e tijolo. A fábrica era apetrechada com excelentes meios técnicos, pelo que José Agra terá participado num curso para encarregados da indústria de tijolos e telhas, que decorreu em Lisboa, no LNEC – Laboratório Nacional de Engenharia Civil. Nessa fábrica realizou-se um ensaio de fabrico de louça decorativa, fundando-se a – O.A.L – Olaria Artística de Lanheses – cujo objetivo era fazer ressurgir a antiga louça de Viana. No último quartel do século XX (1983), nas mesmas instalações, nasceu a – Olaria de Lanheses – Sociedade por quotas – Agra & Dias, Lda. Ali se produziram peças de porcelana de valor artístico, na sua maioria assinadas pelos pintores R. Soares e A. Torres. Porém, a mesma acabaria a sua atividade na década de 80.

Assim, mais do que aquilo que as “telhas de Lanheses encobrem”, não deixemos que o tempo nos encubra e faça de si próprio tábua rasa, e tudo passe às calendas gregas.

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