Os 140 anos da Linha do Minho e o Futuro

Andre Lousinha
Andre Lousinha

A 6 de agosto de 1882, com a chegada da ligação ferroviária a Valença, seguindo o projeto do Engenheiro Brito Taborda, ficou concluído o traçado da atual Linha do Minho (Porto – Valença). Esta linha, cujo traçado foi amplamente debatido na Câmara dos Deputados à data constituída, tem, portanto, 140 anos de existência. A ligação a Espanha concretizou-se quatro anos depois, devido a atrasos na construção da ponte sobre o rio Minho e à apreensão das autoridades em relação à ligação à Galiza (temia-se que a ligação ao porto de Vigo prejudicasse o desenvolvimento económico da cidade do Porto).

O traçado da linha foi objeto de controvérsia. Numa primeira fase, por proposta de Sá Nogueira (deputado – 1864) e Torres e Almeida (deputado Bracarense), é sugerida uma ligação direta do Porto a Braga, prontamente contestada pelo deputado Vianense Pereira da Cunha, que apresentava argumentos a favor de um traçado pelo litoral do território alto-minhoto. Estes conflitos de interesse, constam dos registos das sessões da Câmara dos Deputados de 9-3-1864 e 12-3-1864 (734-736 e 778-779 – Construção da rede Ferroviária do Minho – 1845-1892).

O traçado final, aprovado pela Junta Consultiva de Obras Públicas e Minas, em junho de 1871 (Porto até Nine, com bifurcação para Braga e Barcelos, seguindo depois desde Viana pelo litoral até à Galiza), é na prática um compromisso entre os interesses reconhecidos a Braga e Viana do Castelo. Estávamos no denominado período da Regeneração (segunda metade do século XIX), que é caraterizado por um espírito de conciliação entre diversas tendências políticas, propiciador do progresso material.

Na atualidade, assistimos ao lançamento de obras públicas estruturantes para o progresso nacional (projeto do novo aeroporto de Lisboa ou do traçado da rede ferroviária de alta velocidade), com sinais que vão em sentido oposto, condicionados por lobbies de interesses e sem preocupações de obtenção de amplo consenso entre as diferentes tendências políticas nacionais e regionais.

Com o anúncio da construção da nova linha de alta velocidade entre o Porto e Vigo (2026/2030), a deslocação entre estas duas cidades passa a ter uma duração de uma hora. A beneficiária direta desta primeira fase é a cidade do Porto, sem qualquer benefício para os restantes utilizadores da linha do Minho (dado que o novo troço se desenvolve a jusante de Braga).

Numa segunda fase (após 2030), com a nova ligação ferroviária entre o aeroporto Francisco Sá Carneiro e a estação de Nine, essa duração passará a durar apenas 50 minutos. Nesta fase, os benefícios para Braga são evidentes, mas continuam marginais para as cidades de Viana do Castelo e Barcelos. A título de exemplo, a deslocação de Viana até ao aeroporto Francisco Sá Carneiro terá, a partir dessa data (> 2030), uma duração aproximada de uma 1h20 minutos. A deslocação de Braga ao mesmo aeroporto, terá uma duração de 50 minutos (anteriormente era de uma 1h37 minutos. A deslocação de Valença em relação ao mesmo ponto de referência será de 1h15m, quando anteriormente era de 2h39 minutos.

O Plano Ferroviário Nacional contempla a extensão do serviço de transportes urbanos (suburbanos) até Barcelos, mas a ligação Viana do Castelo-Barcelos será assegurada por comboios regionais! Juntamente com as ligações urbanas a Famalicão e Guimarães, afirma-se desta forma a centralidade de Braga no Minho. Nestas condições, que expectativas podemos ter em relação à competitividade da linha do Minho internacional (Porto-Nine-Viana do Castelo-Valença-Vigo), face à alternativa da linha de alta velocidade (Porto-Braga-Valença-Vigo), como linha internacional preferencial?

A curto prazo regista-se alguma renovação do material circulante (carruagens “Arco”, adquiridas à espanhola RENFE e posteriormente recuperadas nas oficinas da CP em Guifões), que associada à eletrificação da linha permite assegurar melhor conforto e rapidez nas viagens. Contudo, permanecem sem resolução alguns dos principais constrangimentos da linha do Minho, designadamente ao nível das centenárias pontes ferroviárias, troços de linha simples e travessias urbanas. 

Com o novo traçado da linha de alta velocidade, a desenvolver no período 2026/2030, aumentará substancialmente a pressão sobre a competitividade dos comboios internacionais da linha do Minho, que sem um projeto complementar para a modernização do troço Viana do Castelo-Nine, tornará as durações das viagens a partir da estação de Viana do Castelo pouco competitivas face às alternativas, em particular no que se refere a ligações aeroportuárias (ex. ligação ao aeroporto Francisco Sá Carneiro após 2030).

As acessibilidades ferroviárias são um relevante fator de competitividade e coesão territorial, especialmente num contexto de crescente eletrificação dos transportes e otimização da mobilidade sustentável (alternativa ao transporte privado e individual). Essa competitividade mede-se essencialmente pela duração das deslocações e pela possibilidade de recurso a linha dupla na gestão da rede. A reflexão que se lança aos agentes políticos de Viana do Castelo, no contexto do futuro traçado da rede de alta velocidade, é a de saber que projetos estão em estudo para assegurar que a linha do Minho, com as suas atuais limitações, se interliga à RAVE em condições de igualdade com as restantes capitais de distrito do litoral e interior.

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