Os antigos cafés de Viana

Filomena Freitas
Filomena Freitas

Ao ver postar as fotos dos cafés da nossa Praça da República, apetece-me falar do papel destes na vida das pessoas de Viana.

Sempre me admirei da facilidade com que, nesses cafés, em conversa amena, tudo se contava, tudo se sabia. À boleia das torradas, dos cafés, chás e seus copinhos de vinho, destravavam-se as línguas de todos os frequentadores. Todo e qualquer assunto vinha ao de cima. Depois do almoço, os cafés esbordavam de pessoas de todas as camadas sociais. As pessoas arrastavam a pausa do almoço, bem para lá da hora do lanche. A conversa prendia, distraía e nem o cigarro lhes tirava a vontade de falar. Sempre, desde bem novinha, eu acompanhava meu pai e meu tio Severino e logo éramos rodeados, pelos que iam mais para falar ou, simplesmente, para assistir.

As pessoas dissertavam sobre tudo e todos. Cheguei à conclusão que existe no ser humano uma vontade profunda em partilhar o que pensa ou sabe e, em saber dos outros o que pensam e o que se passa ao seu redor.   

Era uma troca fundada na relação de confiança que se construía entre todos, semelhante, de certa forma, à de um penitente e o seu confessor. 

Os temas eram sobre política, prazeres da vida, religião, a vida alheia e as inclemências do tempo. Havia conversas de boca cheia e outras mais corriqueiras. Tudo fluía como um rio que ia abrindo passagem, à medida que corria e tomava caminhos por explorar.

Havia pessoas em cadeira de rodas e de muletas, que contavam ou ouviam peripécias do dia-a-dia. Tudo regado com café ou até chá, nas senhoras, muitas vezes “chá sem fumo”, disfarçado num bule e chávenas, que mais não era que um bom Alvarinho. Ainda hoje se usa em certas pastelarias. Saltava, de vez em quando, uma anedota “mais peluda”.

Tudo se parecia com uma novela da vida real. Voavam estórias, notícias frescas, confissões, com mal-entendidos pelo meio. Saíam uns, entravam outros. Era a forma mais elementar de uma rede social. Um café é sempre mais do que um sítio para se tomar café. É sempre um lugar – refúgio para os solitários. Aí todos tinham voz. Sem censura. Havia algo de democrático e belo neste ambiente maravilhoso e que, hoje, infelizmente, acabou em Viana, e não terei o prazer de o ver acontecer novamente! 

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