Os Espigueiros: Símbolos de um palpitar ancestral das nossas comunidades

Rui Maia
Rui Maia

Os “espigueiros”, tal como são denominados, são instalações destinadas à recolha e armazenamento de espigas, tendo por finalidade a sua preservação contra os agentes externos, como a humidade do ar e do solo e, de igual modo, protegendo os cereais das depredações dos roedores, sobretudo dos ratos, mas também das aves. Essas construções, muito comuns no nosso amado Minho, caracterizam-se fundamentalmente por uma câmara estreita e bem arejada, onde se acomodam as espigas. O “corpo” é composto por paredes com fendas, que permitem a boa circulação do ar; grosso modo, essas construções assentam em pés ou muros, permitindo o isolamento face ao solo, impedindo o acesso dos roedores. Hodiernamente, destinam-se exclusivamente ao milho grosso, salvo algumas exceções esporádicas, em que podem destinar-se a outro tipo de culturas. Os espigueiros estão de forma geral enquadrados com os restantes anexos da “eira”, alpendres ou sequeiras, devido à complexa preparação que o milho requer ao longo de todo o processo. Os espigueiros portugueses e, de igual modo, os galegos, surgem sob variadíssimas formas. A natureza dessas construções é sobremaneira diversa, quer em termos estruturais, quer em termos de forma ou mesmo a diversidade de técnicas de construção e aprimoramento. Assim, genericamente, podemos distinguir dois grandes grupos: os canastros de varas e os espigueiros propriamente ditos. A imagem que contempla este artigo diz respeito a um espigueiro que se pode encontrar na freguesia de Vilar, concelho de Terras de Bouro, onde essas construções surgem de forma imponente e bela no meio de uma paisagem verdadeiramente soberba que caracteriza a região. No caso em concreto, este espigueiro surge integrado no núcleo urbano, podendo este tipo de construções surgir nas suas periferias. Em muito casos, os espigueiros são contemplados com uma Cruz, por cima da peanha, demonstrando de forma cabal a sacralização desses espaços, em que as comunidades pediam a proteção divina dos cereais, essenciais à vida. Além de elementos fundamentais para a preservação do milho os espigueiros e respetivas eiras constituíam-se como locais de sociabilização das comunidades.

Os avanços tenológicos alcançados a reboque da Revolução Industrial ditaram de forma paulatina o abandono desses espaços. Muitos deles não passam de atrativos turísticos, como sucede em Soajo, Lindoso, Sistelo e outras localidades, onde servem de baluartes da nossa História, da nossa memória coletiva. As mecanizações da agricultura acompanhadas pelas mecanizações no tratamento dos cereais para consumo deram azo a um Novo Paradigma que, por sua vez, democratizou o acesso ao pão, acabando ou quase acabando com tradições ancestrais. Os moinhos ou azenhas seguiram o mesmo caminho de extinção, num tempo em que a sua coexistência com os espigueiros era fundamental. A pequena parcela de terra cedeu ao grande latifúndio no que à produção de cereais diz respeito e, face aos novos tempos, testemunhou-se um grande êxodo rural, em que a aldeia perdeu a sua alma de berço e palco de criação. O paradigma atual incita o Homem a retroceder e a voltar às velhas tradições, uma vez que os efeitos da mecanização – industrialização – se tornaram fatais para o equilíbrio do planeta. Em Portugal, felizmente, muitas das aldeias abandonadas pelos efeitos do “progresso” voltam a ser povoadas por quem procura uma vida sadia em comunhão com a natureza. Quiçá, os espigueiros, as azenhas e moinhos voltem a ocupar o seu lugar de relevo dentro de muitas comunidades, incorporando as suas funções primitivas, fundamentais para o futuro do planeta e, por consequência, para nós mesmos.

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