Pablo Picasso (Espanha, 1881 – França, 1973) – “Les Demoiselles d`Avignon”, Óleo sobre Tela, Ano de 1907

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Américo Carneiro

Levou ao artista nove meses a executar esta obra. Quantidade imensa de desenhos e estudos preparatórios, de planos de composição, de camadas de óleo feitas e refeitas, ficaram boiando para sempre no historial deste parto preparado com o máximo de amor e o máximo de rigor também. E, curiosamente, só nove anos passados foi exposta ao público!

   A questão primordial para o pintor nunca foi o tema ou objecto deste quadro, ou seja, O QUE representar, mas sim o processo de representação, O COMO representar o objecto do quadro. 

   A cena poderia ser até “banal”. Trata-se de uma reflexão sobre cenas muito usuais observadas por Picasso e seus colegas nos bordéis da Rua de Avignon, na cidade de Barcelona. Talvez por isso ele gostasse de se referir a este quadro como “o meu bordel”, depois de, anterior (ou posteriormente), ter sido designado como “o bordel filosófico” no círculo de frequentadores do estúdio de Picasso. E foi aqui que alguém lhe fixou o nome: “Les Demoiselles d`Avignon”. Que acabou por ficar na “ficha do baptismo”, embora nada agradasse ao seu criador.

   Cinco mulheres nuas ocupam o espaço como que a par umas das outras. As duas que ocupam o espaço central e mais “luminoso” fitam-nos em poses sensuais e convidativas, de frente, desafiantes. Os seus rostos são semelhantes porque os traços são semelhantes também. À esquerda e de perfil, uma mulher que lembra a pintura egípcia, abre reposteiros cor de carne por detrás e ao alto da sua cabeça “pesada” e sombria. À direita, uma outra mulher que parece usar uma “máscara africana”, tendo algo de “envolvente” em si, abre por sua vez outros reposteiros sobre toda a cena que fita a três quartos. “Mais próxima” do observador fica a quinta mulher que, embora de costas, vira o rosto para lançar um estranho lampejo para “lá da tela”, e o seu rosto lembra, também, de imediato, uma máscara africana. A seu lado, uma mesa (“em primeiro plano” porque o seu tampo é apenas meio tampo) oferece-nos e oferece às bacantes frutos variados e serve o propósito de acentuar alguma sensualidade bem como de estabelecer termos de comparação entre todos os elementos. Um termo de comparação que nos ajude “a ver” algo de NOVO…

    Com este quadro toda a Tradição de milénios foi rasgada, os Cânones desprezados, as leis da perspectiva negadas por ilusórias e provada a “impossibilidade” de representar num plano de DUAS DIMENSÕES (altura e comprimento de uma tela ou de uma folha de papel) toda a volumetria e profundidade das TRÊS DIMENSÕES do mundo que nos rodeia. Tudo uma espécie de séries de truques de prestidigitação criadas e continuadas ao longo de milénios por fiéis seguidores. Agora é o tempo da lucidez que o desenho geométrico oferece, com seus planos, projecções, intersecções e sombras. Agora é o tempo das linhas puras que conduzem o nosso olhar num esforço titânico de síntese e o tempo da cor em mancha que intensifica as coisas e os seres e nos mostra as suas estruturas “reais” e em relação umas com as outras. 

N. R. – O autor não segue os preceitos do novo Acordo Ortográfico.

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