Pelo São Martinho, castanhas e vinho

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Jose Rodrigues Lima

O espaço geocultural do Alto-Minho é litoral e interior; ribeira e montanha; terra e mar; marítimo e raiano; praia e monte; planalto e vale; branda e inverneira; rural e urbano; aldeia local e aldeia global; sitio e povoado; doméstico e social; privado e comunitário; realidade e símbolo; profano e sagrado; comunidade real e comunidade virtual; localismo e globalismo.

As folhas tocadas pelo vento vão caindo neste tempo outonal.

A natureza saudamos com a paisagem onde os tons suaves nos levam, por vezes, à contemplação do território das zonas ribeirinhas ou da montanha.

Estendemos os olhares para perto e ao largo, localizando manchas arbóreas, autênticos soutos de carvalhos e castanheiros.

Estamos no período do ano para recolher as amêndoas, as nozes saborosas e as castanhas para os magustos celebrados com vinho novo ou água pé, em convívio familiar ou de boas amizades.

“Pelo São Martinho vai a adega e prova o vinho e abatoca o teu pipinho”. E os rituais cumprem-se, como se fosse a primeira vez. Os castanheiros oferecem-nos os ouriços arreganhados e as castanhas vão caindo, uma a uma.

A garotada vai apanhando os frutos dos castanheiros, aquelas castanhas que caem à beira dos caminhos, nos campos ou nos soutos, onde canta a passarada ao romper da manha “despertadora”, ou pelo fim da tarde “recolhedora”.

QUENTES E BOAS
Mas se no ambiente da ruralidade há paisagem sonora e outonal, no meio urbano há vozes anunciadoras: “Olha a boa castanha… Quentes e boas./ Eh menina, oh menino… leve umas castanhinhas…”

Os adultos também apreciam as castanhas pelo São Martinho acompanhadas com o vinho da colheita do ano ou a celebrizada “água-pé”, ou a jeropiga feita segundo a tradição do tempo dos avós que eram mestres na elaboração, lá em casa.

VINHO QUE BASTE
Aqui pelo Minho, e noutras zonas vinhateiras do país podemos ouvir, traduzindo à sua maneira o gosto profundo ao vinho: “Não quero ricos cavalos,/ nem palácios reais;/ só q’ ria ter uma adega/ com vinte pipas ou mais”.

O “vinho alegra o coração do homem e as mulheres não desagrada, e não faz mal nenhum”, assim se cantava cantochão.

É de citar a comunicação apresentada no “Congresso Internacional de Etnografia”, realizado em 1963, fruto da investigação de Fernando Castro Pires de Lima, intitulada “O Vinho Verde na Etnografia”.

Desejando inserir-nos na importância do vinho na economia e nas relações internacionais, merece destaque o artigo “Itinerário do primeiro vinho exportador de Portugal para a Grã-Bretanha”, narrativa do Conde d’ Aurora, publicada na separata das jornadas vinícolas, em 1962.

Escreve o citado autor: “o curioso livro seiscentista 1613 “The book of carning and serving and all the feastes of the year for the servisse of a Prince or other estate” – fala-nos, entre outros, dos vinhos servidos na Grã-Bretanha, do célebre “Orey”, nome que davam os britânicos ao vinho verde.

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