Qual o limite da Inteligência Artificial entre nós?

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Natacha Cabral

Caros leitores, na passada semana acordei para a notícia que o circuito profissional de ténis masculino iria abolir a presença dos juízes de linha a partir do ano de 2025. Como fã deste desporto, e tendo trabalhado nestas funções anteriormente, confesso-me desolada.

Este desapontamento nada tem a ver com questões de orgulho ferido, mas pela minha preocupação pelo futuro da humanidade e da nossa saudável continuidade por cá.

É verdade que a inteligência artificial (IA) criou uma revolução no nosso quotidiano, tendo, seguramente, facilitado algumas tarefas ao indivíduo e o libertado temporalmente.

Porém, há uma razão pela qual esta inteligência se chama artificial, e já por isso deveria merecer alguma reflexão da nossa parte sobre os seus limites de atuação.

Não sou nenhuma “old fashion” para achar que isto só veio para atrapalhar e não faz cá falta nenhuma, assim como não sou nenhuma extremista para achar que este é o nosso melhor futuro, até porque tudo o que se encontra nos extremos de nada é benéfico. Mas, parece-me que caminhamos a passos largos para a maior das ilusões – que a IA será a nossa salvação para tudo e mais alguma coisa. Cá entre nós, a sua excessiva implementação é mais uma disfarçada tentativa de esconder as nossas fragilidades e, num mundo tão competitivo, incutiram -nos a ideia de que não há tempo nem margem para falhas.

Não vos soa estranho alguém querer substituir o ser humano por um robô? Não vos soa estranho cada vez que ligam para uma grande empresa e são atendidos por um sistema de voz automático, na tentativa de vos resolver um problema que implica muito mais do que objetividade? Não vos soa estranho numa área como o desporto profissional, onde o público e a interação humana é quem move os atletas e as massas, que, de repente, queiram abolir ou reduzir ao máximo a nossa participação?

Não vos soa estranho o facto de, um dia, a mão de obra humana ser absolutamente desnecessária? E, por fim, não vos soa assustador que, em breve, o contacto humano seja reduzido para o mínimo possível?

Não sei quanto a vocês, mas a mim soa-me estranho, assustador, absurdo e até inviável.

Não consigo achar alegria nem graça alguma, em falar para um robô dos meus problemas, ou ir a um complexo de ténis, procurar vibrar em emoções, que está vazio de pessoas, ou pedir uma refeição, que foi pré-cóncebida por um computador, isenta de carinho.

Tudo isto mais se parece com uma salga-Ihada constante, onde existe uma clara divergência de ideias e de valores, onde, por um lado, se deseja uma sociedade mais unificada, tolerante, madura, compreensiva e integrada e, por outro, se ambiciona uma sociedade isolada, evoluída, perfeita e com uma sensação falsa de liberdade.

Estamos confusos. Estamos perdidos. Estamos a suprimir, a olhos vistos, a ligação com o nosso ser. É como se, devagar, devagarinho, esteiamos a rumar à nossa própria extinção, devido à falta de tolerância pela nossa própria essência – a essência que comete erros, que duvida, que sofre, mas que também corrige, que perdoa, que se levanta, que se transcende, que ama. Continuamos às voltas em torno da ideia de perfeição, de rapidez e de facilitismo, mas poucos se apressam a dar voltas naquílo que realmente é fundamental – o porquê de tanto querermos fugir de nós mesmos, se somos nós que cá vivemos.

Termino este escrito com um pensamento do vocalista de uma banda de rock, Matt Bel-lamy: “A longo prazo, a inteligência artificial e a automatização tomarao muito do que dá aos humanos um sentimento de propósito.

E sem propósito, o que andamos cá a fazer?

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