Realidade vianense

A. Lobo de Carvalho
A. Lobo de Carvalho

Muitas das pessoas com quem interajo e que vivem fora do território municipal referem que a Cidade de Viana está muito acolhedora, face à introdução de várias melhorias funcionais, requalificação de espaços públicos e recuperação de edifícios históricos, ao longo dos últimos anos, tudo isto enquadrado numa paisagem única de mar, rio e serra. E é bem verdade que tem sido beneficiada graças ao dinamismo de alguns autarcas e de entidades privadas, embora desde as últimas eleições não se veja nenhuma obra que encha a vista e até pareça que parou no tempo.

Com efeito, os vianenses esperaram cerca de vinte anos (!) para que o chamado prédio Coutinho fosse demolido, com a promessa muitas vezes expressa da construção, nesse local, de um novo e moderno mercado municipal para servir as necessidades da população. Para ao menos se superar e de algum modo se justificar o sofrimento dos moradores, que tiveram de alterar as suas rotinas de vida, impunha-se a construção, com a urgência requerida, do referido mercado, que até poderia fazer esquecer o trauma dos que ali tinham o seu lar. Todavia, estamos em Outubro de 2023 e ainda não se viu qualquer movimento ou início de trabalhos, estando o terreno cheio de ervas e lixo, cercado por um taipal, este com fotografias alusivas àquilo que será (seria?) a nova obra a levar a efeito. Um abandono total que nos faz questionar o porquê de tanta luta para demolir o prédio, tendo depois o espaço ficado às moscas.

Aquando da intrincada e morosa luta entre moradores do prédio e a autarquia, cada uma das partes defendendo os seus interesses, dizia-se que havia uns milhões de euros (ouvi falar em oito milhões) disponíveis para a construção do novo mercado. Se havia ou não, o facto é que se pode presumir que já não existem, pois caso contrário as obras já teriam tido início, partindo do pressuposto de que haveria um projecto aprovado. Ou não haveria? Mas se esses milhões foram, porventura, desviados para outras necessidades da autarquia, face à demora na demolição do dito prédio, parece-me legítimo admitir que os custos da construção devidamente actualizados poderiam ter sido considerados no PRR de que tanto se fala e que tantos biliões de euros tem dado ao país pela União Europeia, havendo até dificuldades em gastar todo esse dinheiro.

Seja como for, os vianenses têm o direito der saber o que se passa com esta demora na construção do novo mercado, muito especialmente os antigos moradores do prédio Coutinho, que tiveram de ficar sem as suas casas em função de um bem público. E todos temos esse direito à informação, porque a actividade económica na cidade depende em larga medida desse importante equipamento municipal e não deixar a cidade definhar.

A zona histórica, desde que o antigo mercado foi demolido e, também, devido à construção do shopping, sofreu uma erosão profunda, quase desértica, porque as pessoas deixaram de ter um chamariz que as trazia à cidade. As ruas ficaram vazias, comércios importantes encerraram e outros mudaram de local, os que teimaram em ficar vão acabando por sucumbir, a actividade económica diminuiu brutalmente e o que se continua a ver são ruas praticamente desertas. 

Dá profunda tristeza ver a Rua da Bandeira  –  outrora a melhor artéria da cidade em termos de movimento e de comércio de qualidade  –  praticamente sem vida, quer porque os clientes demandaram outras paragens, quer porque casas comerciais importantes foram encerradas e em seu lugar se instalaram outras que não são tão apelativas.

A cidade só ganha vida nos dias de feira e nos meses der Verão, sobretudo Agosto, por causa das Festas da Senhora da Agonia. De resto, mais parece uma cidade sem alma, a cujos responsáveis políticos falta o engenho para aproveitar o seu potencial de excepção, que outros autarcas gostariam de possuir.

Uma outra causa da degradação comercial do centro histórico, em particular, e da cidade, em geral, é a proliferação de superfícies comerciais de grande dimensão nos seus arredores. Até parece o eldorado, tal é a quantidade de hipermercados, se tivermos em conta que a população a que primariamente se destinam, considerando a localização, até nem é numerosa. É por isso que, na minha perspectiva, me parece que foi um erro enorme autorizar tantos estabelecimentos deste tipo, sabendo, embora, que a liberdade comercial deve ser respeitada, mas sem exageros, convenhamos!

Parece que temos uma autarquia cansada e desmotivada, que não se coaduna com o espírito aguerrido dos vianenses, tantas vezes demonstrado ao longo dos anos. Seria bom que este órgão autárquico assumisse com determinação a construção do novo mercado, não só para fomentar a interacção pessoal e comercial, como também para dinamizar a actividade económica e devolver aos vianenses um ambiente social que não se resuma somente aos cafés e às esplanadas. Viana não pode ser só isto, como também não pode ser somente folclore.

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