República dos comentadores

A. Lobo de Carvalho
A. Lobo de Carvalho

Materializou-se nos últimos anos uma tendência que vinha fazendo o seu percurso nas televisões, relativa à conveniência de terem comentadores para falarem acerca de tudo, embora muitas vezes não digam nada de interesse.

É a guerra das audiências que comanda os canais, que evitam ficar para trás sob pena de gerarem baixas audiências e não ganharem para as despesas. Em televisão todos sabemos que vale tudo para ser primeiro!

E foi assim que acabou por se instalar nos canais televisivos uma república de comentadores residentes e outros à peça, que, todas as noites, nos entram em casa, enchendo-nos de comentários sobre tudo o que se passa à nossa volta, situação que quase se transformou numa peste e que acaba por agitar os nervos até das pessoas mais calmas. Se é verdade que há comentadores qualificados, cuja opinião nos pode fazer ver as coisas de outro modo, também é certo que outros não exibem nível nenhum.

Calculo que todos sejam, no entanto, muito bem remunerados, porque para além de nunca faltarem à chamada, mesmo que estejam no estrangeiro, vão sempre aparecendo caras novas.
Destaco pela positiva, e sigo com muito interesse, o programa “Global”, de Paulo Portas, na TVI, aos domingos à noite, porque é uma pessoa inteligente e perspicaz, com uma capacidade analítica e de clareza na exposição das matérias que prende o espectador ao écran. Com ele e com a precisão da sua linguagem ficamos por dentro das situações objecto de análise, e não há dúvida que é um verdadeiro senhor da comunicação que dá gosto ver e ouvir. Pena é que não lhe atribuam mais tempo, porque teríamos a oportunidade de beneficiar do esclarecimento de outros assuntos importantes. O mesmo se diga de José Miguel Júdice.

Na SIC, e também no telejornal da noite, aparece logo a seguir “A opinião que conta”, protagonizada por Luís Marques Mendes, a quem reconheço, igualmente, grande capacidade para expor, ou não fosse ele um advogado habituado a estes palcos mediáticos, para além da larga experiência política. É um programa que também sigo com interesse, porque as suas análises são claras e concisas, embora nem sempre correspondam à verdade, em função dos alvos. Por exemplo, no programa do passado dia 28 de Julho, e a propósito dos kits para os fogos distribuídos pela Protecção Civil no interior do país, classificou, como o pior da semana, o General Mourato Nunes, porque teria partido deste senhor a ideia da sua fabricação que deu a bronca pública que todos conhecemos.

Ora, não se mancha assim a honorabilidade de um homem, no caso concreto um oficial general do Exército, escolhido para o exercício de altas funções do Estado, sem se ter a certeza daquilo que se afirma. Como veio a verificar-se, toda a trapalhada que ocorreu partiu, segundo é público, do adjunto do Secretário de Estado da Protecção Civil, que se demitiu do cargo, naturalmente por ter reconhecido que não agiu segundo as regras legais. Pelo que Luís Marques Mendes extraíu uma conclusão apressada e deveria ter a nobreza de carácter para apresentar, ao senhor general, um pedido público de desculpas no seu programa, repondo a verdade dos factos. Espero, sinceramente, que o faça. Outra coisa não é de esperar deste comentador da SIC, que é também conselheiro de Estado!

Os comentadores desportivos, em praticamente todos os canais e em simultâneo, são a pior praga que apareceu nas televisões, porque, além de alucinarem as mentes de apaixonados da bola com discussões e tomadas de posição incendiárias, que poderão levar as claques a comportamentos violentos, parece que não sabem falar de nada mais.

Com tantas horas televisivas de comentários, o futebol parece ter-se transformado na actividade mais importante do país e aquelas cabeças só pensam e respiram bola. É um manifesto exagero o que está a acontecer, e por vezes estou inclinado a pensar se estaremos a caminhar para uma sociedade de mentecaptos! É que, na verdade, já não são somente jornalistas desportivos e ex-futebolistas neste palco, mas lá coexistem, também, advogados, médicos, políticos, deputados e outros mais, que, pela sua formação académica diferenciada, penso que deveriam eleger temáticas com maior relevância social do que o futebol, legitimando dessa forma os cursos superiores que concluíram.

Mas que fazem, afinal, os comentadores? No futebol, todos querem brilhar e ter razão, e exaltam-se ao emitirem as suas opiniões, mas, tudo espremido, não decidem coisa nenhuma, servindo apenas para alucinarem mentes mais débeis. Dos comentadores que falam de política e que mencionei, poucos mais existem com uma consciência lúcida. Saibamos escolhê-los, assim como os canais de TV, para bem da nossa saúde mental!

Foto: Dr. Cristiano Nabuco

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