Um mundo do avesso

A. Lobo de Carvalho
A. Lobo de Carvalho

Parece que as alterações climáticas que se fazem sentir por todo o planeta não afectam somente a sua geografia, mas também a mente humana, com incidência em muitos governantes e outros políticos que conduzem os destinos das nações. O sol, em demasia, queimou-lhes os neurónios, levando-os a tomar atitudes extremas que prejudicam a humanidade!… Com efeito, o ambiente de paz que, com algumas excepções, existia no mundo, gerido pelas grandes potências, deteriorou-se gravemente em pouco tempo, atingindo níveis de violência assustadores que colocam em risco a sobrevivência dos povos. Violência que não nasceu do nada, mas que é fruto da vontade de políticos sem escrúpulos.

 A Europa, com excepção dos Balcãs, que não conhecia a violência bélica desde finais da segunda guerra mundial, envolveu-se no conflito entre russos e ucranianos, despendendo altíssimos recursos para alimentar este conflito, recursos que tanta falta fazem e são negados aos seus cidadãos. Em África, são os golpes de Estado frequentes para substituir uns ditadores e impor outros. Na Ásia, é a desconfiança total entre potências que querem dominar a região do indo-pacífico, com as populações a viverem no fio da navalha, tal é a ameaça de guerra latente. E agora ressurge outra guerra entre terroristas palestinianos e Israel, que mobilizará aliados de ambos os lados e que nos conduzirá, fatalmente, a uma terceira guerra mundial, cujo desfecho será terrivelmente trágico em perda de vidas humanas e outros recursos. É o mundo do avesso!…

O que se passa na Europa já ultrapassa a decência! A União Europeia e os países da OTAN alimentam esta guerra entre ucranianos e russos, não só despejando continuamente armas de toda a espécie na Ucrânia, como também desviam para este país incontáveis recursos financeiros, que são produto do trabalho dos seus povos e que fazem falta para a melhoria das suas condições de vida. Os governantes dos países da UE vivem siderados numa adoração contínua ao sr. Zelensky com devotas procissões a Kiev para um beija-mão fervoroso, como se de um deus se tratasse. O sr. Zelensky passou a ser um ídolo a ocupar todos os palcos mundiais, parecendo que nada mais tem importância. E isto acontece com um país que não é parte integrante de qualquer uma destas organizações ocidentais!…Não querem ver que, ao alimentarem a guerra, estão a prolongá-la no tempo, contribuindo para a causa da morte em vez de glorificarem o milagre da vida. Enquanto isso acontece, uma grande parte de todos os povos europeus acumula sofrimentos, sem empregos, sem casas para viverem, sem alimentos, sem cuidados de saúde, sem perspectivas de uma vida decente. Os pobres e os sem-abrigo multiplicam-se, os trabalhadores queixam-se de ser mal pagos, os profissionais das diversas carreiras do Estado são desprezados e nega-se a solução aos seus problemas. Quando a justiça social não se pratica primeiro dentro do próprio país e quando um governo não resolve os seus problemas internos, alegando falta de recursos financeiros, embarca num desprezível comportamento ao fazer-se de grande perante o exterior, à custa dos dinheiros dos impostos que os contribuintes têm de pagar. 

Os países ocidentais uniram-se todos contra a Rússia partindo de uma premissa irreal. Têm medo que a invasão da Ucrânia se repita com algum país pertencente à OTAN. Ora isso seria um acto de loucura por parte dos russos e tenho para mim que tal iniciativa nunca teria lugar, como aliás nunca tive, porque sabem de antemão que as consequências seriam altamente nefastas. Estão a revisitar a história, a sua história, com um território que já foi seu e que não pertence nem à OTAN nem União Europeia – e espero que não pertença antes de terminar a guerra – ,  pelo que estas organizações não tinham que se envolver da forma como o fizeram e continuam a fazer em termos armamentistas, antes devendo apostar na oferta de recursos humanitários para diminuir o sofrimento das populações atingidas. Penso que, não obstante este gigantesco apoio bélico ocidental, vai ser uma guerra perdida para a Ucrânia, e só posso lamentar a enormíssima perda de vidas humanas, com grandes responsabilidades para o ocidente por alimentar este conflito. É preciso dizer frontalmente que aquilo que o sr. Zelensky mais deseja é, simplesmente, egoísta e diabólico. Estando-se a borrifar para as consequências, pretende ver a OTAN, enquanto aliança militar, envolvida directamente nesta guerra, o que significa que todos os países entrariam no conflito para combater a Rússia, envolvendo as suas forças armadas. É por isso que vem exercendo tanta pressão para entrar na OTAN, e só espero que haja lucidez por parte dos governos na avaliação deste processo e não alimentem uma cegueira perigosa.

Espero que os povos europeus, incluindo os portugueses, abram os olhos e castiguem os seus dirigentes políticos nos actos eleitorais, escolhendo outros que sejam mais sensatos e que pensem em resolver primeiro os problemas sociais internos, E, sim, privilegiar a diplomacia como caminho ideal para resolver conflitos, bem como assumir sempre a solidariedade com outros povos em problemas sociais e humanitários.

Esta é a minha forma de ver o conflito. Não apoio a Federação Russa pela invasão, mas compreendo as suas motivações. Defendo a Ucrânia na sua autodefesa, mas sem o envolvimento armamentista dos países e alianças ocidentais, por prejudicarem os seus povos, roubando-lhes os meios financeiros para a resolução de graves problemas socioeconómicos. Os dois beligerantes terão de conversar, seja lá quando for e como for, para poderem sair de cabeça levantada. Se assim não for, acredito que o país chamado Ucrânia nunca mais será tal como é conhecido. O sr. Zelensky teria de deixar a sua arrogância e a sua linguagem discursiva de caserna, agindo como um estadista, e os políticos ocidentais deveriam deixar de adorar este ídolo, que tanto veneram, e forçá-lo a negociações diplomáticas, porque os cidadãos já estão cansados. Esperemos que o sol ardente prolongado não queime mais ainda os neurónios dos políticos e governantes e que venha um tempo frio para refrescar as cabecinhas que conduzem o nosso destino colectivo.

NR: O autor não acompanha o novo acordo ortográfico

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