Um tesouro feito de recordações

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Uma flor seca, uma cor, uma história contada com afeto: eis uma fórmula mágica para aqueles que mais amamos ficarem connosco para todo o sempre.

Penso na morte, ainda recente de meu filho Eduardo. Parece que, por onde quer que eu passe, tudo me desperta recordações dolorosas: o cheiro quase a sabonete, do seu perfume favorito; um certo tom de azul; um sorriso lindo. E, no entanto, que sorte poder ter estas recordações!

Dolorosas agora, mas tenho um livro de recordações no meu espírito. Através delas, posso sentir para sempre a presença de todos (e são todos).

Quantas vezes se nos escapam por entre os dedos os ingredientes para estas recordações? Há, no entanto, formas de enchermos os nossos livros de recordações mentais, maneiras de criarmos e fixarmos lembranças, a fim de que aqueles que amamos fiquem para sempre connosco.

As cerimónias familiares constituem uma das nossas recordações mais queridas, os Natais, os aniversários, etc.

Para transformarmos o vulgar em algo inesquecível, só é preciso encararmos os acontecimentos do dia-a-dia com os olhos abertos ao simbolismo que eles encerram, como metáforas do amor. Seja o acender da primeira lareira no Inverno. Tudo se torna memorável se o fizermos com o gosto e um pouco de solenidade.

Eu soube, desde cedo quão frágil é a vida. Comecei cedo, em criança, a esforçar-me por fixar os bons momentos. Sempre que sentia que o momento era perfeito, gravava logo no espírito todos os pormenores: a sensação no Verão da água a secar na pele, sentada num penedo… O cheirinho dos bifes grelhados… o vento a acariciar-me os ombros. E, melhor que tudo isto, lembro-me de ter tido consciência da felicidade:” É que este dia contém tudo o que sempre quis.”

Penso duas vezes antes de deitar fora as minhas cartas ou os primeiros desenhos de meus filhos. São lembranças preciosas, até porque já não estão comigo.

São bocadinhos de ternura ligados a pedaços de amor que, misturados, se transformam em recordações maravilhosas.

Digam que amam, elogiem, pois, meu pai dizia-me a par e passo: que bom ouvir aquelas palavras tão espontâneas.

Que recordação mais preciosa! É a única maneira de “sentir” a presença dele para sempre.

Filomena Freitas

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