XXX. PICABIA

Américo Carneiro
Américo Carneiro

O fenómeno da fragmentação toma um lugar de destaque tanto nas composições artísticas como literárias a partir do Modernismo. A associação numa composição, geralmente de carácter onírico, de pedaços de imagens, formas, recordações, de visões e de imaginações muitas vezes retiradas de sonhos, sem que se adopte qualquer tipo de controle consciente, intelectual ou de carácter lógico e/ou racional na sua selecção, ou se estabeleça um qualquer nexo de causalidade entre fragmentos, não pré-existindo uma postura teórica (antes uma “sensitiva”, antes uma de feição “instintiva”) por parte dos seus autores na sua junção/assemblagem, vêm-nos dos gloriosos Simbolistas. A fragmentação dos elementos e a sua associação é teorizada, com grande sucesso, pela Pintura Metafísica e, simultaneamente, pelo Surrealismo. Ao mesmo tempo, o Cubismo passa a fazer da fragmentação a matéria-prima da sua revolução estética: ao decompor a realidade (quatro dimensões) dos seus modelos – geralmente, retratos e naturezas-mortas – a fim de os submeter e plasmar nas duas dimensões do plano da tela, tiveram que fragmentar os elementos constituintes desses modelos em pelo menos quatro/cinco das seis faces do “cubo” onde inseriam – para observação – esses elementos dos seus modelos. Depois, os cubistas colocavam “lado a lado”, nas suas composições, as faces desses “cubos” observados, depois de as terem selecionado no todo ou em parte da sua extensão. E isto faziam sem terem de trabalhar com o princípio da Perspectiva que, aliás, já tinham posto de parte por se tratar de “uma ilusão”. Ainda segundo os cubistas, os fragmentos de uma composição podem agregar-se numa tela ou, pelo contrário, podem desagregar-se, “explodindo” e criando, deste modo, novas valorações nas suas mensagens. Tome-se como exemplo disso a obra de Picasso, “Guernica” (V., p.f., o artigo “XI. Picasso”, na rúbrica “Amados Quadros” d`”A Aurora do Lima” N.º 11, Ano 167, de 24.03.2022).

Francis Picabia vem a acrescentar um novo conceito àqueles que atrás enunciámos: – O conceito de “transparência” dos elementos fragmentados, o que vem a abrir caminho à “sobreposição”, em camadas de imagens “planas e translúcidas”, associadas em justaposição como que em “profundas” imagens caleidoscópicas.

Entre 1928 e 1929, Picabia executa as suas primeiras séries das “Transparências”, de onde se destaca a obra aqui em apreço, “Catax”, como singular exemplo da sua arte superior. O resultado estético é, como podemos admirar, surpreendente, poético, quase intraduzível em palavras.

Poucos o sabem, um avô de Francis Picabia tinha sido um pioneiro da Fotografia e o artista, já desde tenra idade, estava familiarizado com os maravilhosos efeitos de óptica proporcionados pelas transparências das películas fotográficas…

Decidido a pôr em prática todas estas suas vivências, Picabia encontra a oportunidade ideal para o fazer quando se muda para o sul de França e, em simultâneo, começa a experimentar a doçura de um novo amor. O ar mediterrânico que o envolve e o calor do coração inspiram-no e é sob esse circunstancialismo que começa a desenvolver estas suas “Transparências”. Em “Catax”, o rosto de uma mulher, fragmentado e tomado sob diversas perspectivas, vai-se misturando com braços, mãos, entrelaçadas ou não, asas (de borboletas ou de pássaros), peixes e conchas, ramos de árvores e elementos decorativos e rosas brancas (símbolo do amor puro) que se derramam sobre o que aparenta ser uma representação clássica do corpo de uma mulher (a Mulher Ideal?)… Representando uma figura humana a partir de fragmentos que são pontos de vista variados de um modelo e, com isso, atingir a tridimensionalidade do mesmo modelo, é do Cubismo; fazer a justaposição “irracional” de todos estes elementos, é claramente do Surrealismo; e, finalmente, adicionar a todos esses fragmentos a qualidade da “Transparência” e o valor do Simbolismo, isso é do melhor da Arte e da Arte de Picabia, poderosa e marcadamente pessoal. Inultrapassável, quase diríamos.

N.R. – O Autor não segue as normas do novo Acordo Ortográfico.

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