XXXII. CARRINGTON Leonora Carrington (Reino Unido, 1917 – México, 2011) – “A Estalagem do Cavalo da Alvorada/ Auto-Retrato”, Óleo sobre Tela, Ano de 1936

Américo Carneiro
Américo Carneiro

Não fossem as ligeiras sombras sugeridas em torno dos corpos e dos objectos, sentir-nos-íamos tentados a vê-los suspensos, gravitando entre impressões e miragens, neste quadro emblemático e autobiográfico de Eleanora Carrington. Depois de um primeiro relance, apercebemo-nos de que toda a “acção” (o quadro está cheio de “acção”) tem início numa explosão de ectoplasma junto ao chão, entre a hiena e a janela com cortinas que dá “para o exterior” do compartimento. O ectoplasma, apesar de nunca ter sido cabalmente demonstrada a sua existência, é tido como manifestação certa de um outro tipo de matéria – que fica entre o estado gasoso e o estado sólido – e que é passível de visualização nas sessões mediúnicas dos espíritas*, por força das emanações de poderosas entidades espirituais que estarão ali presentes. No quadro, o ectoplasma tem o aspecto de um fogo-fátuo, ilumina a cena e parece que é a partir dele que surge a hiena prenhe, lactante, que nos fita, desafiante, qual “alter ego” da autora, que a seguir nos surge em movimento curvilíneo, pairando sobre uma poltrona-sela. Poisa um par de botins sobre o chão e, entre estes e a cintura de amazona, aparenta usar umas calças de montar que não passam de “buracos de luz” na tela branca, parecendo autênticos “recortes” não pintados da composição, e, para todos os efeitos, silhuetas de luz numa outra realidade (intocada).

   Agora, bem vistas as coisas, os olhos da hiena e os da autora, a sua expressão, configuração e natureza, tornam-se nuns só e dirigem-se com exactidão para nós. Os cabelos da Pintora, que são mais como uma poderosa juba, parecem descolar-se do crânio e formar uma aura que emoldura um belo rosto andrógino que respeita o cânone grego.

   Depois, e completando a curva ascendente que se iniciou no soalho, por trás da hiena, e já por trás da retratada, temos um belo cavalo branco (de brinquedo?), suspenso, projectando uma ténue sombra sobre a parede e parecendo sugerir que ele é o mesmo que, levitando e libertando-se dos suportes-carris, se terá lançado pela janela e corre agora, livre e belo à luz da Alvorada (um Novo Dia) num bucólico parque inglês. Tudo é estranhamente límpido, leve, absurdo e enigmático como se fosse um sonho.

   Este quadro foi pintado por Leonora Carrington em 1936, tinha ela, portanto, 19 anos de idade.

   Nascida no seio de uma família rica em Clayton Green, Lancashire, em Inglaterra, Leonora Carrington foi uma criança problemática e rebelde que, por diversas vezes foi expulsa dos colégios onde era internada, e viveu e cresceu entre a rigidez de princípios de seu pai, inglês, que sempre se opôs aos seus ímpetos libertários e artísticos, e a doçura e a compreensão de sua mãe, irlandesa, que tudo fez para a encorajar nos seus desígnios.

   Com 14 anos, em 1931, foi internada num colégio em Florença, Itália. Aqui iniciou sérios estudos artísticos e a partir daqui acedeu aos melhores museus do mundo. A seguir, pôde frequentar a renomada “Mrs. Penrose Academy of Art” e a Escola do Convento de Saint Mary, em Ascot. Entretanto viajava e, em Paris, teve a oportunidade de conhecer as primeiras grandes obras surrealistas assim como os principais interventores do movimento. Um feliz encontro com o Poeta Paul Éluard, por exemplo, marcou-a profundamente. Foi por esta altura que sua mãe lhe ofereceu um exemplar do livro de Herbert Read, “Surrealismo”. Foi, pode dizer-se, o empurrão final (V., p.f., o artigo “IX. Arcimboldo”, na rúbrica “Amados Quadros” d`”A Aurora do Lima” N.º 7, Ano 167, de 24.02.2022).

   Em 1935, com 18 anos de idade, frequenta a “Chelsea Art School” de onde transita para a “Ozenfant Academy of London”.

   Depois, é o encontro romântico com o Pintor surrealista Max Ernst, em Paris, a sua camaradagem com grandes pintores como Picasso, Miró, Dalí, o início da sua carreira literária com a publicação do primeiro livro, “A Casa do Medo” (“The House of Fear”), ilustrado por Max Ernst, seu companheiro. É desta altura o primeiro encontro com a Pintora Remedios Varo (Espanha, 1908 – México, 1963), que viria a moldar todo o resto da sua vida e da sua obra no México, onde se naturalizaria e onde viria a morrer. E é desta altura (1936), a realização deste quadro, “A Estalagem do Cavalo da Alvorada”, o seu auto-retrato.

   Confesso que, ao observá-lo, me interrogo muitas vezes: – Até que ponto o quadro de Salvador Dalí, “Seis Aparições de Lenine sobre um Piano” (1931), onde se representam, entre outras coisas, poderosas manifestações de ectoplasma, terá tido influência sobre Leonora Carrington no sentido de executar este seu auto-retrato?

*  “…dos espíritas…” – “Espiritismo, s.m. Doutrina daqueles que crêem na sobrevivência da alma depois da morte e que admitem a possibilidade de comunicações entre os vivos e as almas dos mortos…” – Pág. 678, 2.ª coluna, do Dicionário da Língua Portuguesa/Fernando J. da Silva, Editorial Domingos Barreira, Porto, 4.ª Edição, 1984. 

      

N.R. – O Autor não segue as normas do novo Acordo Ortográfico.

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