XXXV. ENSOR James Ensor (Bélgica, 1860 – 1949) – “Máscaras desafiando a Morte”, Óleo sobre Tela, Ano de 1888

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Américo Carneiro

Desde sempre, os artistas usaram formas e modos que permitissem exprimir mais as tensões interiores e as explosões emotivas e sentimentais, mais os extremos dos estados de alma dos seus íntimos do que aquilo que de exterior os rodeava. As poderosas Máscaras, que ainda hoje nos perturbam, vindas do Teatro Helénico e da Antiguidade Clássica, são bem a expressão disso mesmo. Eficazes, elas acolhem a persona de cada criador (ou seja, actor), cumprem a função para que foram concebidas, isto é, a de comunicar o mais perfeitamente possível no Teatro da Vida o que de mais importante vai no âmago de cada persona acolhida por cada uma dessas máscaras. E cada máscara é tratada de forma muito particular, apaixonada, intensa, com cores violentas e sobrenaturais cobrindo esgares (gestos) e disformidades gritantes.

Já disso se aperceberam, por certo, estamos tratando aqui do que se convencionou chamar Expressionismo nas Artes. Por necessidade de “datação”, convencionou-se que o “Expressionismo”, como Movimento dominante, triunfou entre os anos de, mais ou menos, 1905 e 1930, e que os “Expressionistas” eram sobretudo Alemães, os artistas da chamada “geração perdida” do período de entre-guerras.

Isto será válido, evidentemente, se relativizarmos as coisas e se pudermos ver estas balizas espácio-temporais como apenas úteis para nos “confortar” nas análises que fizermos (V., p.f., o artigo “V. Goya”, na rúbrica “Amados Quadros” d`”A Aurora do Lima” N.º 43, Ano 167, de 23.12.2021).

Em 1888, com cerca de 27 anos de idade, James Ensor concluía este quadro, “Máscaras desafiando a Morte”. Ele era um jovem inteligente e muito dotado que, nesse mesmo ano de 1888, havia de apresentar aquela que é considerada a sua obra-prima, “Entrada de Cristo em Bruxelas”, anunciadora, muito antes dos “seus tempos”, do Fauvismo e do Expressionismo, e, de igual modo, o mesmo ano em que, com outros artistas belgas, criaria o Grupo “Les Vingt”. Estava o jovem James Ensor a reagir contra a então dominante predilecção dos Impressionistas pelas paisagens e pelas cenas da vida quotidiana, internando-se no seu intimismo fantasista, carregado de enigmas a desvendar e de símbolos poderosos e abrangentes…

Ensor terá comentado, um dia: – “O que é que as máscaras significam para mim? A frescura da cor, a sumptuosidade decorativa, as inesperadas expressões, selvagens e delirantes, a turbulência exótica que transmitem…”

Assim, neste quadro, “Máscaras desafiando a Morte”, as suas criações mascaradas parecem adquirir uma formidável vida e desafiam a Morte (será ela também uma Máscara de algo que está muito para além dos nossos limites atingir, de algo que nunca seremos capazes de compreender?); as suas criações mascaradas combatem a Morte com a inevitável e imbatível garridice vestida de uma intensa luz (um intenso “branco”), e com essa luz se envolvem e vêm a envolver – vestindo-a, amortalhando-a – a própria Morte, como que lhe negando a Escuridão de que necessita para operar no Mundo dos Vivos…

Talvez este quadro seja a expressão das meditações do seu autor em torno do conceito da sua própria mortalidade, reflexões quiçá aliadas àquelas imortais crenças bem humanas de que, um dia, derrotaremos o que é inevitável… Como tudo isto é profundamente literário!… E como o Carnaval mostra que nos habita a todos, sem qualquer excepção!…

   

N.R. – O Autor não segue as normas do novo Acordo Ortográfico.

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