II – O Liceu de Viana do Castelo e o seu 1.º reitor

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José Teixeira Cruz

Em 1855 é alugado parte do palacete Sotto Mayor, na rua da Bandeira, onde se manteve até 1911. Com a implantação da República, o Estado passou a deter novos edifícios pertencentes a ordens religiosas e o liceu foi transferido para a Casa dos Quesados, na rua da Bandeira, onde estavam instalados os jesuítas, iniciando-se as aulas no novo edifício em 16 de outubro de 1911, o qual, em 1918, passou a designar-se Liceu de Gonçalo Velho. A progressiva subida do número de alunos vem mostrar que o liceu necessitava de um edifício condigno, que acaba por ser construído na quinta pertencente à Casa dos Quesados, que começou a funcionar em 16 de outubro de 1946, com a designação que teve na sua criação de Liceu Nacional de Viana do Castelo.

O liceu de Viana foi encarado nas várias reformas como liceu nacional, não abrangendo o curso liceal completo, o que obrigava os alunos que desejassem completar o ensino liceal a deslocarem-se aos liceus de Braga, Porto ou Coimbra. No meu caso, após a conclusão do segundo ciclo no liceu de Viana, estudei no Colégio do Minho o terceiro ciclo e fui fazer os exames ao liceu de Braga. Houve uma tentativa de elevar o liceu desta cidade a liceu central, o que foi conseguido em 1919, mas foi de pouca duração. Só em 1957, pelo Decreto nº 41280, de 20 de setembro, é que o liceu voltou a ter o terceiro ciclo.

Na sua origem, o liceu foi de frequência masculina. Em 1886 matriculou-se a primeira aluna que frequentou o liceu durante dois anos. Em 1901 matriculou-se outra e em 1906 mais três. A partir deste ano o número de alunas aumentou, atingindo a percentagem de 40% no final de 1930, começando então a haver turmas somente masculinas ou femininas.

Havia também turmas mistas. Nestes casos, as alunas ocupavam os lugares de um dos lados da sala ou os lugares da frente. No tempo em que frequentei o liceu, os rapazes aguardavam o professor fora da sala, e só entravam depois, e as raparigas esperavam dentro da sala, sentadas nos seus lugares, levantando-se à entrada dos professores.

Até 1930 todos os professores eram do sexo masculino, sendo nesse ano admitida como professora provisória de Canto Coral, Emília Fernandes Fão, a primeira professora do sexo feminino.

Com a entrada no liceu de alunas e professoras, o tipo de relacionamento existente mudou. O mundo masculino passou a dar lugar a outro mundo de convivência mais igualitária, embora com algumas regras, como a circulação dentro do liceu e a forma de se apresentarem e se vestirem. No regulamento interno dos anos 30, não era permitido a entrada dos alunos que não se apresentassem vestidos decentemente. Em 1969 defendia-se a proibição do uso de calças pelas alunas, sem saias; a minissaia só era admitida quando usada com decoro com uma bata decente que cubra os joelhos (Cf. AZEVEDO, Rodrigo -Liceu Gonçalo Velho, in “Liceus de Portugal”, págs. 764-765).

Desde o início da criação do liceu nasceu a ideia que se tratava de uma academia estudantil. O trajo de capa e batina, os órgãos estudantis com a eleição de uma direção da Academia, os grupos culturais como a Tuna, a Filarmónica ou o grupo de teatro, e algum comportamento boémio, fazem lembrar o que se passava naquele tempo na Universidade de Coimbra, havendo mesmo uma confraternização entre os dois tipos de estudantes. À semelhança do que se passava na universidade, também no liceu havia a praxe a marcar a entrada de novos alunos, conhecidos por caloiros ou peneiras.

A maior festa da Academia deste liceu era a comemoração do 1º de dezembro, que se foi consolidando no sarau teatral e musical que, após a sua construção, passou a decorrer no Teatro Sá de Miranda. A partir de 1930 a organização do sarau passou para a Associação Escolar, constituída sob a direção do reitor. Em 1937 a direção do espetáculo passou a ser controlada pela Mocidade Portuguesa.

Também houve jornais produzidos por académicos. Entre eles cito O “Gabiru”, O “Peneira”, O “Academia Vianense”, “O Académico”, e já no século XXI, no “liceu” (Escola Secundária Pluricurricular de Santa Maria Maior), foi elaborado o jornal “A Escola de Viana” por Miguel Granja e Fernando Lago.

2- O 1º Reitor do Liceu: laços familiares e outras referências

O Dr. Albano José, 1º Reitor do Liceu, nasceu na Vila da Foz do Lima em 21 de maio de 1817, antes da elevação de Viana do Castelo a cidade, sendo filho do médico Francisco José da Cruz e Sousa e neto do oficial do Exército João Álvares da Cruz. Como descendentes teve um único filho, José Maria da Cruz, funcionário público que, por sua vez, teve cinco filhos do seu segundo matrimónio, o primeiro foi meu Pai, a quem pôs o nome Albano José do seu progenitor. Meu Pai também casou duas vezes e quando faleceu tinha vivos os seus filhos Amélia, Conceição, Albano José, Marília e eu, José Maria, autor destas singelas linhas.

Antes da instituição do registo civil em 1911, o assentamento dos factos da vida de um indivíduo, como o nascimento, casamento ou morte, era efetuado pela Igreja Católica. Os sacerdotes faziam esses registos em livros próprios, onde, por vezes, encontramos algumas divergências em nomes do mesmo indivíduo em assentos efetuados por padres em datas diferentes. Para dar um exemplo, o nome “Álvares” aparece na mesma pessoa também como “Alves”. No Arquivo Distrital de Viana do Castelo consultei vários livros de registos referentes aos séculos XVIII e XIX. (…)

(Continua na próxima edição)

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